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Solteironas e humor: um casamento que deu certo

Fátima e Suely vivem às voltas com homens errados. A primeira, interpretada por Fernanda Torres, é amante há quatro anos do sedutor Armane (Vladimir Brichta), que sempre promete abandonar a esposa, mas nunca cumpre. A segunda, vivida por Andrea Beltrão, foi casada por dois meses com Jurandir (Érico Brás), um caso que não desata nem reata. Elas são as solteironas protagonistas de Tapas & Beijos, série que explora a graça de se ser desimpedida – ainda que louca para achar o homem certo – aos 30 anos e vem rendendo à Globo audiência acima dos 26 pontos nas noites de terça, após a morna novela das nove, Insensato Coração.

O bom desempenho do programa se explica. De forma popular e bem humorada, a série não conta apenas a história das personagens de Fernanda Torres e Andrea Beltrão, mas a de muitas brasileiras. Segundo as estatísticas do registro civil do IBGE, por motivos diversos que vão desde a priorização da carreira à mudança de visão de mundo e, é claro, à má escolha do parceiro, cresce sem parar a população das mulheres que demoram a se casar. Em 1999, a taxa de mulheres que se casavam entre 30 e 34 anos era de 10,6%. Dez anos depois, o índice era 70% maior: 17,2%.

O adiamento do enlace já não representa necessariamente um tormento para a mulherada. E é isso que mostra Tapas & Beijos. Para Fernanda Torres e Andrea Beltrão, Fátima e Sueli desejam ser amadas e felizes em seus relacionamentos, mas adoram a independência que têm e não querem abrir mão dela. “Elas adiam essa sonhada vida de casada para o futuro, como se tivessem 20 anos, porque, no fundo, adoram a liberdade que têm”, diz Fernanda. “Elas querem ser felizes e livres”, afirma Andrea.

É sobre essa nova mulher brasileira e sobre o sucesso da série Tapas & Beijos que as atrizes falaram ao site de VEJA.

O casamento sempre foi uma ambição feminina, mas, segundo o IBGE, está sendo adiado pelas próprias mulheres. Fátima e Sueli representam esse novo perfil feminino?

Andrea Beltrão: Homens e mulheres querem amar e ser amados. O casamento pode ser uma celebração do encontro desse amor perfeito (quando a gente casa tem certeza que encontrou. Ou não…). Fátima e Sueli, duas imperfeitas muito divertidas, não encontraram o par perfeito, mas os homens que elas amam são perfeitos para elas, apesar de todas as imperfeições que eles têm.

Fernanda Torres: A expectativa de vida aumentou e é normal, hoje, as mulheres terem ambições profissionais. As mulheres estão tendo filhos mais tarde, optando por prolongar os seus anos de liberdade produtiva. Só que existe sempre a tensão do relógio biológico que enlouquece a mulherada depois de passados os trinta anos. As duas personagens são uma versão bem popular dessa mulher. Embora Fátima e Sueli não falem de ter filhos, e embora a questão das duas esteja mais focada em estabelecer, ou não, um relacionamento sólido com um homem sem perder a liberdade conquistada, o problema de formar o ninho e procriar ainda a tempo está presente por de baixo dos panos.

Vocês percebem algum desconforto por parte dos homens diante dessa atitude mais independente das mulheres?

Andrea Beltrão: Não. Pessoas independentes são as mais interessantes.

Fernanda Torres: Sei de homens casadoiros com dificuldade de encontrar uma mulher calma para casar, mas conheço mais mulheres com o relógio biológico apitando sem perspectiva de encontrar um parceiro. O número de mulheres disponíveis é maior do que o de homens, o IBGE também nos diz isso, então é mais fácil para um homem encontrar saídas do que para uma mulher. Não percebo desconforto nos rapazes para o novo comportamento feminino, homens e mulheres passaram juntos pelas últimas mudanças e, hoje em dia, as gurias convidam os meninos para dançar desde o maternal, o que acaba aliviando para eles a exigência de serem machos alfa.

Fátima e Sueli são bem resolvidas com a solteirice ou querem casar a qualquer custo?

Andrea Beltrão: Acho que elas querem ser felizes e livres, e muito amadas. Quando a gente consegue conciliar tudo, é uma maravilha.

Fernanda Torres: Eu acho que elas continuam adiando essa sonhada vida de casada para o futuro, como se tivessem 20 anos, porque, no fundo, adoram a liberdade que têm. Elas são companheiras uma da outra, não sentem solidão crônica, ganham dinheiro, são livres para sair, namorar, voltar para casa a hora que bem entendem, não têm compromissos familiares, vestem o que desejam, vão aonde querem e, orgulho máximo: não dependem de homem para viver. Os dois amores que escolheram são perfeitos para o modelo de vida das duas. Um é casado, ou seja, jamais estará disponível, e o outro é dependente afetivo sem condições de bancar uma vida para Sueli. Elas querem casar em um futuro ideal que nunca chega e, enquanto isso, curtem a vida que têm.

No que Fátima e Sueli são diferentes?

Andrea Beltrão: Em tudo ou em nada, depende do ponto de vista. Uma é organizada, a outra não, por exemplo. Mas as duas têm sangue quente e não levam desaforo para casa. Porém, todavia, contudo, nunca perdem o humor e a classe.

Fernanda Torres: A Fátima é um pouco mais insensível, mais voltada para si mesma e não tem nenhuma responsabilidade nas finanças, se endivida em crediário, compra o que não pode, gosta de celular caro, de bolsa de camelô e tem, mal ou bem, uma relação sólida com um macho alfa, o Armane. A Sueli tem um coração mais sensível, percebe melhor o sofrimento alheio, é mais responsável e tem um gancho eterno com o louco do Jurandir. Mas ambas são parecidas na independência, no humor e na amizade.

Em que tipo de mulher vocês se inspiraram para compor as personagens?

Andrea Beltrão: A inspiração vem da observação e da admiração por todas as mulheres (e homens também, porque não?) que sabem viver numa boa, apesar dos pesares.

Fernanda Torres: Tenho minha família, minha tia Áurea que era funcionária do Detran, minha prima Aurinha, filha dela, trabalhadora, independente. As duas Áureas tiveram filhos, marido, mas o jeito é parecido. Minha tia tinha muito humor, ia para o Detran todo dia e o luxo dela era pegar táxi. As babás dos meus filhos me lembram as duas também. A Valéria, babá do meu filho, é assídua frequentadora do Via Show, já marca no meio da semana a cerveja com as amigas no fim de semana. É uma mulher hiper responsável com meus filhos e uma boêmia profissional nos fins de semana. A irmã dela é uma lady, mãe de família, linda, que pega o ônibus de Caxias para cá vestida sensualissimamente, lembra muito as duas. Mas todas essas mulheres que eu citei têm filhos e estão casadas, então não são muito a Fátima e a Sueli.

Por que Fátima recusou o pedido de casamento de PC (Daniel Boaventura)? Isso mostra que ela não quer casar a qualquer custo, mas sim com seu “príncipe”, Armane (Vladmir Brichta)?

Fernanda Torres: Porque ele beija mal, porque ela não o ama e porque ela é louca pelo Armane. Conheço inúmeros casos assim, de amantes que depois de quinze anos no posto de segunda mulher, acabaram se transformando numa espécie de filial, de segundo matrimônio. Esses homens, bígamos profissionais, amam as amantes e as mulheres, não saberiam viver sem as duas. Cada uma completa um lado da vida deles. O Armane é um grosso, diz as últimas para a Fátima, mas enlouquece de ciúmes quando vê que tem a chance de perdê-la. É amor. E a posição da amante é muito especial. Uma amante participa da vida mundana do homem, aquela que ele não compartilha com a esposa. A amante é amiga dos amigos de farra do homem, sai na noite com ele, segura os problemas difíceis que a mulher não pode saber. Por outro lado, o preço dessa relação, é a eterna solidão nas festas de fim de ano e feriados nacionais, é viver nas horas vagas, ouvindo sempre que a prioridade não pode ser você. Uma amante de longo tempo acaba confidente e cúmplice do casamento do homem.