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‘Sociedade está cometendo suicídio coletivo’, diz Serj Tankian, do System of a Down

Vocalista da banda americana fala sobre seu novo álbum solo, 'Harakiri'

Por Carol Nogueira - 17 jul 2012, 11h54

Quem conhece a banda System of a Down está acostumado a associá-la a temas políticos. Afinal, esse é um dos temas favoritos do grupo, formado por descendentes de armênios na Califórnia, nos Estados Unidos, nos anos 90. O SOAD, como é conhecido por fãs, está em hiato desde 2005, quando lançou seus últimos discos, Mesmerize e Hypnotize, mas voltou à ativa no ano passado para fazer alguns shows. Esteve, inclusive, no Brasil, onde tocou no Rock in Rio e em São Paulo. No entanto, um novo álbum não deve vir tão cedo. Os fãs terão de se se contentar com uma série de trabalhos que o vocalista Serj Tankian prepara para os próximos meses. A começar pelo disco Harakiri (termo em japonês que designa suicídio), seu quarto solo, que ele lança nesta semana no Brasil.

Durante as apresentações em território brasileiro, Tankian aproveitou para fazer críticas à construção da usina de Belo Monte. “Nós respeitamos os costumes dos índios brasileiros. A civilização não deve ser imposta a eles”, disse, afirmando em seguida que a banda apoiava “o fato de os brasileiros não estarem felizes com o desenvolvimento” do país. “Eu estava em algum lugar na América do Sul e amigos me contaram sobre isso. Eu achei um absurdo, porque não é possível que um país queira crescer tão rápido prejudicando o povo indígena. Gostaria de poder fazer algo a respeito, então me posicionei”, afirma Tankian.

A opinião de Tankian sobre Belo Monte se soma à de celebridades brasileiras que, no final do ano passado, lançaram um vídeo com críticas semelhantes – o material, contudo, foi rebatido em seguida por outros três vídeos, produzidos por universitários. O embate virtual, na época, lançou luz sobre a onda de “artistas que abraçam qualquer causa que aparenta ser politicamente correta”, mesmo sem ter a menor ideia do que se trata de fato. Os estudantes, por sua vez, utilizaram pesquisas, cálculos e informações hidrológicas e geográficas para se posicionar a favor da usina.

A discussão em torno do tema não incomoda Tankian. Afinal, o viés político, assim como peculiaridades sonoras, permeiam todo o trabalho do System of a Down, e é exatamente o que lhe confere sabor. O músico não faz reservas quando o assunto é misturar gêneros. Embora sua banda seja classificada como “heavy metal”, os projetos que ele deve colocar no mercado em breve serão bem diferentes entre si. Orca será sua primeira sinfonia, gravada ao vivo com orquestra. Fuktronic, um projeto de música eletrônica feito em parceria com Jimmy Urine (do grupo novaiorquino Mindless Self Indulgence). Já Jazz-Iz-Christ, bem, tem algo a ver com jazz. Algumas músicas de Harakiri também levam Tankian para outros estilos musicais, como Deafening Silence, que tem backing vocals de sua noiva, Angela Madatyan.

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Leia abaixo os melhores trechos da entrevista com Serj Tankian.

No ano passado, quando vocês tocaram aqui, você comentou algo sobre a construção da usina de Belo Monte. Como ficou sabendo disso? Eu estava em algum lugar na América do Sul e amigos me contaram sobre isso. Eu achei um absurdo, porque não é possível que um país queira crescer tão rápido prejudicando o povo indígena. Gostaria de poder fazer algo a respeito, então me posicionei. Acredito que nós só veremos os benefícios da democracia se deixarmos de fazer decisões baseadas somente em dinheiro. O que vivemos atualmente é uma democracia feita sem educação.

A banda é conhecida por ser bastante politizada. Já vi alguns vídeos em que você cobra que Barack Obama reconheça o genocídio armênio. Então, aproveito para perguntar: quem você acha que vai vencer as eleições americanas no fim do ano? Eu acho que Obama vai vencer, por causa de todos os elementos progressistas de seu governo. Eu acredito que ele tem feito um trabalho decente, em questões como a reforma dos planos de saúde, mas ainda há muito para ser feito. Os Estados Unidos são um país impossível de governar, mas as pessoas gostavam mais do candidato Obama do que do presidente Obama.

Por que você escolheu o título Harakiri para seu álbum? Acho que a sociedade está cometendo um suicídio coletivo de certa forma. Estamos envenenando nosso planeta, o local onde vivemos. É uma forma simbólica de falar sobre a morte, de certa forma, da espécie humana. O título do disco veio de uma música homônima que está nele, que eu escrevi quando pensava sobre os desastres nucleares que aconteceram no Japão. Alguns meses antes, vários peixes foram encontrados mortos em lugares diferentes do mundo, e esse tipo de animal está muito mais conectado com o mundo do que nós, eles devem ter sentido algo. Não acredito que seja coincidência.

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Tem uma música no disco que se chama Reality TV, na qual você critica as pessoas por assistirem às “mentiras dos outros” nos reality shows. Por que decidiu falar sobre isso? As pessoas costumam falar mal desse tipo de programa falando mal do programa ou do canal. Mas eu acho que o problema, na verdade, está nas pessoas que assistem. Que tipo de vida nós estamos vivendo que permite que esses programas se tornem tão populares e nos façam acompanhá-los de qualquer maneira, gostando ou não? Acho que é algo a se pensar…

Quando o System of a Down vai lançar um disco novo? Fico feliz que as pessoas se interessem pela banda, e um novo disco deve vir em breve, quando estivermos prontos. O futuro é o futuro. Na hora certa, os fãs ficarão sabendo.

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