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Sobre refugiados, documentário italiano ‘Fuocoammare’ emociona em Berlim

O júri presidido por Meryl Streep vai ter dificuldades de ignorar o ótimo filme sobre o assunto do momento

Personagens em crise dominaram o início da competição do 66º Festival de Berlim – além de Inhebbek Hedi, do tunisiano Mohamed Ben Attia, houve Boris Sans Béatrice, do canadense Denis Côté, e L’Avenir, da francesa Mia Hansen-Løve. Mas foi Fuocoammare, um documentário de Gianfranco Rosi sobre os moradores de Lampedusa, uma pequena ilha entre a Sicília e a Líbia que vem recebendo milhares de refugiados nos últimos anos, que realmente emocionou com seus personagens reais.

Um deles é Samuele Pucillo, de 12 anos, que mora com a avó e é filho de pescador. A família é simples, mas o garoto vai à escola, visita o médico quando tem problemas de visão ou um aperto no peito e brinca de guerra com seu estilingue e arma imaginária. Rosi, que passou um ano na ilha, acompanha o cotidiano do engraçado e falante menino. A vida de Samuele, mesmo modesta, não poderia ser mais distante daquela dos refugiados levados para o centro de detenção de Lampedusa após serem resgatados no mar – faz alguns anos que eles não chegam a desembarcar em Lampedusa.

Em cada barco precário com dezenas de pessoas, há crianças, mulheres, pessoas doentes e aquelas já mortas por causa das más condições da travessia. Samuele e os outros moradores da ilha não falam muito dos refugiados, simplesmente porque não têm acesso a eles. Depois de recolhidos no mar, os doentes vão para o hospital, e os sobreviventes, para o centro de detenção, de onde são levados para outras cidades italianas. O elemento de ligação entre os moradores e os refugiados é o médico Pietro Bartolo, que dá um depoimento emocionado e tocante sobre o que viu nos últimos 25 anos.

Rosi consegue entrar no centro de detenção e embarca no navio de resgates. Quase sem usar entrevistas ou conversas, prefere apostar na força das imagens que evidenciam a tragédia daquelas pessoas, normalmente reduzidas a números nos noticiários, e o escopo da crise, ao deixar claro que os barcos carregam gente de diversos países da África e do Oriente Médio. O Festival de Berlim tem como marca sua preocupação política e social, e a Alemanha está no centro da questão dos refugiados. É difícil imaginar que o júri presidido por Meryl Streep vai ignorar Fuocoammare.

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Revoluções pessoais – Streep, aliás, deve ter gostado de ver a sempre brilhante Isabelle Huppert em L’Avenir (“o porvir”, na tradução livre), de Mia Hansen-Løve. A atriz francesa interpreta Nathalie, uma professora de filosofia do ensino médio que ama seu trabalho. Ela precisa se reinventar quando o marido de 25 anos a deixa por uma mulher mais jovem. Mas Hansen-Løve, cujos pais são professores de filosofia, não dá ao filme o tratamento de um dramalhão, pelo contrário.

Com os dois filhos já crescidos, Nathalie desfruta de uma liberdade que nunca teve – ou, pelo menos, havia muito não tinha. É uma chance de começar de novo, coisa que pode acontecer a qualquer momento da vida. Ela sabe, porém, que, para uma mulher de certa idade, a maior probabilidade é a de ter de lidar com a solidão. Nathalie é uma personagem feminina bem formada, que pensa e tem suas ideias expostas na tela – liberdade, destino, revolução são algumas delas. Não chega a empolgar, mas é sólido.

Em Boris Sans Béatrice (“Boris sem Béatrice”, na tradução livre), de Denis Côté, o foco também está numa crise de meia-idade, mas de um homem. James Hyndman é Boris Malinovsky, um sujeito bem-sucedido, orgulhoso e arrogante cuja mulher Béatrice (Simone Élise-Gerard), ex-ministra do governo do Canadá, entra em depressão. Boris age como se espera, envolvendo-se com a cuidadora Klara (Isolda Dychauk) e com sua colega de trabalho Helga (Dounia Sichov). Seu círculo de mulheres se completa com sua filha, a atriz Justine (Laetitia Isambert-Denis), com quem tem pouco contato. Ele é obrigado a pensar em suas escolhas e atitudes ao ser questionado por um misterioso estranho (Denis Lavant). O filme é visualmente instigante, mas Côté dificilmente consegue criar personagens que despertem alguma empatia. Não ajuda muito que as personagens femininas sejam clichês ambulantes.