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Série ‘Zé do Caixão’ vai além das longas unhas de Mojica

Matheus Nachtergaele dá vida ao cineasta, um dos pioneiros do terror no Brasil

Em um set de filmagem, iluminado por uma forte luz, surge a misteriosa figura de um homem baixo, com barba, vestes pretas, cartola e capa. A sobrancelha esquerda, arqueada como um circunflexo, tem o incrível poder de causar arrepios. A cena, parte da minissérie Zé do Caixão, mostra o nascimento do sádico personagem coveiro criado pelo ator José Mojica Marins, apresentado em 1964, no longa À Meia-Noite Levarei Sua Alma.

A série de seis episódios, que estreia no canal Space nesta sexta-feira, 13, às 22h30, com Matheus Nachtergaele na pele do protagonista, acompanha o início da carreira de Mojica. Para além de ser o Zé do Caixão, o ator e cineasta também foi um pioneiro na história da sétima arte no Brasil, tanto do gênero do terror quanto no quesito liberdade de temas, com roteiros que envolviam tabus como sexo e drogas.

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Tanto que, a presença da figura nefasta só aparece no segundo capítulo do programa televisivo, já que o primeiro é dedicado aos bastidores da produção do faroeste A Sina do Aventureiro, de 1958, estreia de Mojica nas telas, feito com fundos levantados pela venda dos papéis do longa, um tipo de crowdfunding pré-internet. Sem leis de incentivo, o ator e diretor tirava seus projetos do papel na base do “faça você mesmo”. Ele e um grupo fiel de amigos colocavam a mão na massa, pintavam cenários, atuavam enquanto cuidavam da iluminação. Sempre dando um jeito para a escassez de se fazer cinema no Brasil no início dos anos 1960.

Por exemplo, Mojica queria cavalos distintos para o mocinho e para o bandido em A Sina do Aventureiro, mas Mario Lima lhe entrega apenas dois equinos de cor branca. A solução vem a galope: primeiro, filmam os mocinhos nos cavalos lisos, depois os cavalos voltam em cena com manchas pretas pintadas no corpo, para ajudar os bandidos. “Era um exército de Brancaleone”, diz André Barcinski, durante evento de lançamento da série. O autor e jornalista escreveu ao lado do também jornalista Ivan Finotti o livro Zé do Caixão – Maldito, a Biografia (Aleph), pontapé inicial para a criação do programa televisivo. Barcinski, aliás, é um dos roteiristas da atração dirigida por Vitor Mafra (do filme Lascados).

Apesar de retratar o nascimento de um personagem de terror, o seriado é repleto de “causos” cômicos. Durante as filmagens de À Meia-Noite Levarei Sua Alma, por exemplo, Mojica precisava de mais atores para criar uma longa vigília. Para driblar a falta de um grande elenco, ele pede aos atores que, ao sair do enquadro da câmera, deem a volta para o final da fila, com uma peça de roupa diferente.

Na série, a trupe inseparável de Mojica é formada pelo diretor de fotografia Atile (vivido por Antonio Saboia), o único na época com algum conhecimento em cinema; Dirce (Maria Helena Chira), personagem fictícia que foi criada para ser a união das mulheres que realmente passaram pela vida de Mojica; e o fiel escudeiro Mario Lima (Felipe Solari), o solucionador dos problemas.

A química do trio é boa e os atores são dignos de elogios, mas o destaque fica, inevitavelmente, com a forte presença de Nachtergaele. Ele não só encarna com fidelidade os gestos de Mojica, como também as idiossincrasias de sua fala. As vogais estendidas e o “R” vibrante constroem a frase “à meia-noite levarei sua alma”, dita de forma calma e dura pelo ator.

Durante a coletiva de lançamento do programa, Barcinski revelou que Mojica queria Mel Gibson como seu intérprete. Se o ator australiano não pegou o papel, Nachtergaele o engoliu com prazer e digeriu as entranhas do personagem, com muito sangue e criatividade. Do jeito que Mojica gosta.