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‘Sensação de impotência’, diz artista que teve obras roubadas na Via Dutra

Caminhão levava mais de 50 peças do português Isaque Pinheiro do Rio de Janeiro para Belo Horizonte quando foi abordado por bandidos

Depois de dois meses expostas no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, mais de cinquenta obras do artista português Isaque Pinheiro seguiam em um caminhão para Minas Gerais, onde seriam exibidas na galeria dotART, em Belo Horizonte, quando foram roubadas na Rodovia Presidente Dutra. “Senti uma grande tristeza, uma impotência, porque o roubo fez com que as obras deixassem de ser fruídas pelo público”, diz Isaque a VEJA.

Segundo Wilson Lázaro, diretor artístico da dotART, o roubo aconteceu no dia 27, entre o bairro de Pavuna, na zona norte do Rio, e a Baixada Fluminense. O caminhão, que carregava outros objetos além das obras de Isaque, foi encontrado, mas sem nenhuma mercadoria. As investigações estão sendo conduzidas em sigilo pela polícia do Rio.

“Imagino que, sendo um roubo aleatório de um caminhão, quem roubou não terá noção do que tem em mãos nem saberá preservar essas obras”, afirma Isaque. Ele estima que o conjunto poderia ser avaliado entre 200.000 e 300.000 reais, mas reforça que no momento sua maior preocupação não é a questão financeira e sim o fato de essas obras não poderem mais integrar outras exposições e, por tabela, divulgarem seu trabalho.

Restaram apenas duas obras, que haviam sido produzidas pelo artista exclusivamente para a exposição na dotART, e outras seis que não entraram na mostra do Paço, por serem maiores do que o local comportava. Elas haviam sido enviadas antes para a galeria mineira, em outra remessa.

Isaque criou a série para o Paço Imperial, que foi usado no século XVIII como residência dos governadores do Rio e, a partir de 1808, com a chegada da família real portuguesa, como escritório de despachos de Dom João VI. As peças consistem em matrizes esculpidas em cedro e gravuras que representam a carta do rei de um baralho. Cada matriz contém apenas uma parte do desenho da carta – usando todas alinhadas, é possível extrair o desenho como se conhece. A ideia do artista, porém, era apresentar gravuras incompletas, com suas formas levemente fora de foco ou sem algumas partes do desenho.

Matrizes usadas por Isaque Pinheiro para compor as gravuras da exposição 'AcorDo Rei' Matrizes usadas por Isaque Pinheiro para compor as gravuras da exposição ‘AcorDo Rei’

Matrizes usadas por Isaque Pinheiro para compor as gravuras da exposição ‘AcorDo Rei’ (Isaque Pinheiro/Divulgação)

“Em todas as gravuras faltava sempre uma, duas ou mais cores. Era uma metáfora para dizer que enquanto todas as cores não estiverem em sintonia, não se consegue ter a figura do rei ou do governante de maneira plena”, explica Isaque. Aberta no dia 19 de setembro, a exposição ficou em cartaz até o dia 25 de novembro, ou seja, durante o período das eleições, o que reforçava seu caráter político.

O artista afirma que somente a última fase do desenvolvimento das obras – a produção das matrizes e a impressão das gravuras – levou cerca de três meses. “Era um trabalho diário, sem sábado e domingo, por até onze horas por dia. Foi uma empreitada grande, feita com muito empenho e prazer.” Ele conta que, a princípio, não pensa em refazer as peças. “A arte é em primeiro momento um espaço de prazer, de liberdade. Confesso que tentar reproduzir as obras seria angustiante.”

Exposição 'AcorDo Rei' Exposição ‘AcorDo Rei’

Exposição ‘AcorDo Rei’ (Rafael Adorján/Divulgação)

Em nota, a dotART lamenta o ocorrido. “Foi uma exposição belíssima e acabou se tornando efêmera. As obras que sobraram dão a dimensão da série e se tornaram, com este fato, ainda mais importantes”, diz. A galeria também pede que caso alguém veja ou saiba o paradeiro das obras envie uma mensagem para: contato@dotart.com.br.