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‘Senhoras e senhoras, com vocês, Roberto Carlos’

Show do ‘rei’ só para mulheres em SP é marcado por histeria do público

Roberto Carlos sorri. Elas gritam. Roberto Carlos coloca a mão atrás da orelha pedindo que o acompanhem. Elas berram. Roberto Carlos dança todo desajeitado. Elas gritam ainda mais – há apenas elas na plateia. Em show realizado na noite deste domingo em benefício do Projeto Velho Amigo e do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), o “rei” fechou o Palácio do Anhembi, em São Paulo, só para mulheres. A ideia partiu da amiga Hebe Camargo, que numa brincadeira disse ao cantor que ele deveria ser “só da gente”. Hebe estava lá, é claro, como convidada especial. A apresentadora subiu ao palco para repetir o dueto de Você Não Sabe, música de seu último CD, se emocionar junto com Roberto, passar cantadas não musicais no amigo e receber uma rosa ao final da apresentação. Além de anunciar a entrada no show. “Senhoras e senhoras, com vocês, o nosso amor, o ‘rei’ Roberto Carlos.”

O auditório do Anhembi lotado para o show de Roberto Carlos O auditório do Anhembi lotado para o show de Roberto Carlos

O auditório do Anhembi lotado para o show de Roberto Carlos (/)

“Deve ser difícil para você entender essa loucura, né?”, pergunta à reportagem a psicóloga Conceição Biondi, 53. Ela viajou quase três horas de Cruzeiro, cidade próxima à divisa de São Paulo com Minas Gerais e Rio de Janeiro, num ônibus com 46 mulheres, apenas para ver Roberto. “Paguei 400 reais pela viagem e pelo show, mas vale a pena. As músicas dele marcaram a trajetória de toda mulher de 50 ou 60 anos. Essa agora (o ‘rei’ canta Outra Vez) me fala das paixões que não deram certo. É impossível não lembrar da vida inteira nesse show.”

É uma loucura, mesmo. Enquanto Conceição fala, sentada numa cadeira que não é a sua, um raro assento desocupado num auditório de 2.500 lugares lotado, algumas mulheres passam por debaixo do corrimão que separa o setor de 260 reais do de 300 reais, a chamada zona do gargarejo. Uma segurança negra tenta impedir o trânsito durante o show e alguém na plateia dispara o seu racismo. “Aquela mulher é um macaco e segura todo mundo.” As outras espectadoras, alheias ao comentário, seguem disparando seus flashes fotográficos.

Helô Pinheiro e a filha Ticiane Helô Pinheiro e a filha Ticiane

Helô Pinheiro e a filha Ticiane (/)

Não é somente o “rei” que atrai os flashes e as invasoras do setor azul. Ali, nessa espécie de área vip, estão celebridades como Hebe Camargo, as cantoras Claudia Leitte e Mariana Aydar, Helô Pinheiro e a filha, Ticiane, que prometeu à mãe passar a ela sua rosa, caso receba alguma de Roberto Carlos. “Eu dou uma pétala para ela”, disse Helô, para compensar. Durante o show, algumas fãs saidinhas tentam fotografar o deleite dessas famosas diante do “rei”. Um movimento pequeno perto daquele que se viu entre 18h e 19h. Antes de a apresentação começar, no hiato provocado pelo atraso de mais de quarenta minutos do cantor, foi sobre essas celebridades que a plateia feminina se jogou, com câmera digital e pedidos de autógrafos. “Me dá uma folha do seu bloco?”, pede à reportagem uma fã da garota de Ipanema, que acaba levando duas. “A outra é para a minha filha”, justifica, sem pudor. Enquanto Ticiane fala ao celular, ela ordena a Helô, “Pede para ela assinar, também”.

Nem todas se agacham junto ao corrimão para alcançar a área vip, porém. Muitas simplesmente se sentam ali, como garotas, apesar da meia idade, para ver o ídolo mais perto. Erguem os braços e cantam e choram. E gritam. É o caso das amigas Maria Lúcia de Azevedo, 66, e Maria Aparecida Araújo, 62, de Belo Horizonte, que investiram cerca de 1.000 reais para vir a São Paulo assistir ao cantor. “Eu sou do lar, meu marido é quem custeia tudo. Ele diz que dá dinheiro para o Ricardão, que o Roberto é meu amante”, ri Maria Lúcia, camisa azul da Beija-Flor estampada com o tema do Carnaval 2011: o Ricardão, Roberto Carlos. Na mão, a dona-de-casa tem um cartaz de face dupla. De um lado, um Roberto mais jovem, com mangas dobradas, mostra os braços bonitos. Do outro, um recado dúbio de Maria Lúcia: “Há 48 anos, você é um detalhe em minha vida”. Ao final do show, para o seu delírio, ela vai conseguir entregar o cartaz ao “rei” e receber dele, em troca, uma rosa vermelha. Como aquela que outra fã, a governanta paulistana Nilza Teixeira, 42, pôs para secar no sol, há um ano, e conserva até hoje, de recordação. “Vou guardar para sempre.”

Maria Lúcia, fã de Roberto Carlos Maria Lúcia, fã de Roberto Carlos

Maria Lúcia, fã de Roberto Carlos (/)

A amiga de Maria Lúcia, Maria Aparecida, não é menos tiete. Animada, ela deixa de prestar atenção ao show por alguns minutos para mostrar os suvenires que junta do cantor: a cópia do boletim escolar e de um documento que atesta que Roberto Carlos Braga nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, em 19 de abril de 1941, e é filho de Laura Moreira Braga, a Lady Laura. E Lady Laura está no menu do espetáculo, assim como Eu te Amo, Além do Horizonte, Nossa Senhora, Unforgettable, de Nat King Cole, e Detalhes, em que ele acompanha a si mesmo no violão. Entre uma música e outra, um agradecimento ou a promessa de nunca esquecer essa noite, textos tão repetidos quanto o seu repertório, mas que, nem é preciso dizer, deixam a mulherada em polvorosa. E lá vêm gritos, gritos e mais gritos.

As emoções, sem trocadilhos com o hit do músico, estão em alta. Mas duas UTIs móveis estão posicionadas na entrada do Palácio do Anhembi para qualquer eventualidade. Cercada por quatro enfermeiras – o veto à presença masculina atingiu a equipe de saúde -, a médica responsável, Ana Maria Visconti, dava dicas para enfrentar o nervosismo antes do início do espetáculo. “É importante beber bastante água para hidratar, por causa do calor, evitar álcool e tomar direitinho os remédios para pressão e diabetes”, disse. “Eu acompanho quase todos os shows do Roberto, e geralmente os casos que atendo são de hipertensão ou desmaio.”

Zelinda e Claudete, fãs de Roberto Carlos Zelinda e Claudete, fãs de Roberto Carlos

Zelinda e Claudete, fãs de Roberto Carlos (/)

Passam por ela as amigas Zelinda Fiques, 57, dona-de-casa, e Claudete Giungg, 58, autônoma. Estão animadas para ver o espetáculo, mas ponderam que a honraria de um show só para mulheres tem lá as suas desvantagens. “Não dá para paquerar”, dizem. Mesmo assim, a proposta parece ter agradado à maioria e pode ganhar reprise em outras cidades do país nos próximos meses, de acordo com a organização do show. Pode-se esperar mais trânsito de fãs pelo Brasil.

A turnê de Roberto Carlos por São Paulo tem continuidade nos próximos dias, com um show extra em 5 de dezembro. Confira a agenda no site do cantor.