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Sátira contra a vontade de fazer a guerra – um filme americano na Berlinale

O cineasta americano Billy Bob Thornton fez a Berlinale rir nesta segunda-feira com seu filme “Jayne Mansfield’s car”, uma sátira que concorre ao Urso de Ouro, sobre o espírito guerreiro de seus compatriotas, protagonizada pelos célebres atores Robert Duvall e John Hurt.

Thornton, muito popular entre os cinéfilos por ter ganhado um Oscar em 1996 por seu filme “Sling blade” (O outro lado da vida) e ter sido marido de Angelina Jolie, tece nesse filme uma trama em torno de uma família no estado sulista do Alabama, na época da guerra do Vietnã.

O patriarca Skip Caldwell, interpretado por Robert Duvall, veterano da Primeira Guerra Mundial, recebe um dia um telefonema de Londres anunciando que sua ex-mulher e mãe de seus filhos morreram. A família britânica da falecida, conduzida pelo seu segundo marido, chega com o corpo para enterrá-lo no Alabama, segundo suas últimas vontades.

O ator britânico John Hurt disse que o que distingue este filme “é que a intimidade de cada personagem está exposta diante do espectador. A personagem principal é uma mulher morta”.

Nas primeiras cenas há uma manifestação contra a guerra do Vietnã e quando a polícia decide deter alguns dos hippies presentes está, entre eles, um dos filhos do velho Caldwell.

“O tema principal é a guerra, mostrar como diferentes gerações veem a guerra e destacar nossa incapacidade de tirar lições do passado”, declarou Thornton, que explicou que a origem deste filme vem de um trauma de sua infância.

“Aos quatro anos meu pai me levava e a meu irmão para ver acidentes de trânsito. Para ele era uma distração. Ele era um irlandês, veterano da Segunda Guerra, muito violento, dominava por completo a família, não podíamos conversar com ele, não me lembro de ter tido um diálogo”, disse.

No filme, aparece Robert Duvall levando John Hurt e um de seus netos a um suposto museu onde era exibido o automóvel Buick azul em que morreu a atriz Jayne Mansfield, em 1967, numa estrada do estado do Mississipi.

A atriz Katherine LaNasa, que interpreta uma das filhas do patriarca, elogiou o trabalho de Thornton dizendo: “Venho de Louisiana e devo dizer que nunca tinha visto uma declaração de amor tão forte aos estados do sul como este filme”.

O realizador insistiu que a falta de comunicação nas famílias pode levar a desastres, “como ter a ambição de se alistar para fazer a guerra em qualquer lugar do mundo”.

“Passei toda minha vida tentando obter o reconhecimento do meu pai, amava-o mas tinha medo dele. O impulso para escrever o roteiro e fazer esse filme foi a relação com meu pai. Ele morreu quando eu tinha 17 anos. Agora o compreendo melhor, ele só não era capaz de expressar o que passava por sua cabeça”, disse.

“Os dois velhos, interpretados por Robert Duvall e John Hurt, lutaram na Primeira Guerra, meu personagem na Segunda e outro na do Vietnã, penso que nunca aprenderemos”, disse.

“Se os veteranos da Segunda Guerra foram tratados como heróis, os do Vietnã eram tratados como mendigos”, lembrou.

Thornton disse que quando terminou seu roteiro não conseguiu produtor nos Estados Unidos. “Tive a sorte de encontrar um russo que gostou do meu projeto”, contou.

O produtor russo Alexander Rodnyansky, presente em Berlim, disse que o roteiro o agradou “porque é como um jogo de xadrez. Além disso, gosto do cinema que cria um universo, que propõe uma viagem emocional, capaz de fazer as pessoas rirem ou chorarem”.

“Na Rússia, além disso, os cineastas não pensam nos espectadores, diferentemente do que acontece nos Estados Unidos onde o espectador é o mais importante, as histórias são filmadas para que as pessoas as vejam”, acrescentou Rodnyansky.