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Sapucaí terá desfiles mais caros – e mais disputados – em 2014

No aniversário de 30 anos da passarela do samba, nove escolas têm chances reais de conquistar o título. Mudanças de gestão e investimento de patrocinadores ajudam o espetáculo a ficar mais equilibrado

Por Rafael Lemos - 2 mar 2014, 18h39

No ano em que completa 30 anos, o Sambódromo da Marquês de Sapucaí vive a expectativa daquele que promete ser um dos carnavais mais disputados de sua história. A hegemonia avassaladora da Beija-Flor, que chegou a conquistar cinco títulos num período de apenas seis anos (2003, 2004, 2005, 2007 e 2008), deu lugar a um cenário mais competitivo – e, por isso mesmo, mais empolgante. Pelo menos nove agremiações vão brigar pela seis vagas no Desfile das Campeãs. A Império da Tijuca abriu a festa às 21 horas deste domingo.

Este ano, a Beija-Flor homenageia José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, com o enredo O Astro Iluminado da Comunicação Brasileira. O último título da azul-e-branca foi uma homenagem a outro famoso, o cantor Roberto Carlos, em 2011. Apesar de ainda ser uma das favoritas, a escola de Nilópolis ganhou rivais à altura. Nos últimos anos, fortes concorrentes despontaram da região da Grande Tijuca, na Zona Norte: Salgueiro (campeã 2009), Unidos da Tijuca (2010 e 2012) e Vila Isabel (2006 e 2013).

Na mesma linha da Beija-Flor, a Unidos da Tijuca decidiu reverenciar o piloto Ayrton Senna, com o enredo Acelera, Tijuca!. A escola tem como trunfos o talento do carnavalesco do momento, Paulo Barros, e um modelo empresarial de administração. Outro destaque é a comissão de frente comandada pelos coreógrafos Priscilla Mota e Rodrigo Neri, responsável por alguns dos momentos mais marcantes do Carnaval recente. Depois do desfile do ano passado, a agremiação ainda trouxe como reforços o intérprete Tinga e o casal de mestre-sala e porta-bandeira Julinho e Rute, todos saídos da campeã Vila Isabel.

A Vila, curiosamente, teve baixas importantes logo após o título de 2013. A carnavalesca Rosa Magalhães também deixou a escola após o desfile. Com dificuldades financeiras, a Vila Isabel sofreu atrasos no cronograma e de salário. O novo carnavalesco, Cid Carvalho, chegou a pedir demissão e abandonar o projeto, alegando falta de condições de trabalho. Depois, entrou num acordo com os dirigentes e reassumiu o cargo. A agremiação alega enfrentar dificuldades por não ter recebido os 6,7 milhões de reais captados através da Lei de Incentivo à Cultura. Depois de um ano glorioso, a Vila Isabel precisará fazer um Carnaval de superação para se manter no páreo, com o enredo Retratos de um Brasil Plural.

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Outro forte candidato é o Salgueiro. A vermelha-e-branca tem o samba-enredo mais empolgante do ano, apesar de ter abraçado um tema arriscada: o meio ambiente. Não são poucos os casos de causas que, na avenida, simplesmente não conseguem traduzir ideais politicamente corretos em algo empolgante. O enredo Gaia – A vida em nossas mãos, que traz a assinatura dos carnavalescos Renato Lage e Márcia Lage, é fruto de um patrocínio de uma montadora de automóveis no valor de 3 milhões de reais. O montante reforça a verba anual das escolas, que atualmente está em torno de 6 milhões de reais, mais a receita obtida com os ingressos na quadra – que, no caso do Salgueiro, é bastante representativa.

Salgueiro, Unidos da Tijuca e Vila Isabel integram, com a Estação Primeira de Mangueira, a região da Grande Tijuca – um celeiro de bambas com fortes chances de levar para a Zona Norte o campeonato em 2014. A tradicionalíssima Mangueira, que passou por mudanças na gestão, ressurge como mais uma candidata na briga pelo título do Grupo Especial. O deputado estadual Chiquinho da Mangueira (PMDB-RJ) foi eleito presidente após o Carnaval do ano passado e tenta reorganizar a escola, que atravessava um momento conturbado internamente. O principal reforço foi a contratação de Rosa Magalhães, que ajudou a Vila a conquistar o título em 2013.

Além da verde-e-rosa, outras quatro gigantes dão sinais de que acordaram de sonos profundos: Portela, Mocidade Independente de Padre Miguel, Imperatriz Leopoldinense e Grande Rio.

Na Portela, escola que também enfrentou dificuldades ao longo da última década, a mudança começou através do voto. A comunidade entregou o comando da escola ao compositor Serginho Procópio, que conquistou o apoio de diversos segmentos da escola descontentes com a antiga gestão. Ele derrotou nas urnas o seu antecessor Nilo Figueiredo, investigado por irregularidades nas prestações de contas dos desfiles da Portela. O resultado já se vê no barracão, que pela primeira vez em muito tempo teve o cronograma respeitado e não está na dramática correria para aprontar o desfile. A Portela também reforçou seus quadros, com destaque para a contratação do carnavalesco Alexandre Louzada, campeão com Mangueira (1998), Vila Isabel (2006) e Beija-Flor (2007, 2008 e 2011). No entanto, a maior conquista da escola está na recuperação da autoestima e da motivação dos seus componentes, que são o seu maior trunfo.

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Bicheiros – Já a Mocidade fez o caminho inverso, com um resgate das suas raízes mas, também, retomando algumas tradições no mínimo questionáveis. No mês passado, o bicheiro Rogério Andrade, sobrinho do falecido Castor de Andrade, reassumiu o posto de patrono da escola. Logo depois, o então presidente Paulo Vianna foi denunciado pelo Ministério Público do Rio por mandar falsificar assinaturas na ata de uma assembleia. O dirigente acabou renunciando à presidência, sendo substituído oficialmente pelo vice Waldyr Trindade, o Macumba.

O lado bom do reencontro na Mocidade com seu passado está no enredo Pernambucópolis, homenagem ao falecido carnavalesco Fernando Pinto. O autor de Tupinicópolis (1987) é lembrado como o maior carnavalesco da história da Mocidade, ao lado de Renato Lage. Outros motivos de comemoração para os componentes foram a vitória do samba-enredo da parceria de Dudu Nobre e o retorno de sua irmã, a porta-bandeira Lucinha Nobre, e do mestre-sala Rogerinho.

Depois de um animador quarto lugar no desfile do ano passado, a Imperatriz Leopoldinense voltou a se apresentar como uma adversária de peso. Não apenas pela colocação, mas pela organização e competência que tem demonstrado também fora da avenida. O carnavalesco Cahê Rodrigues segue na escola e assina desta vez um enredo em homenagem ao maior ídolo do Flamengo, Zico: Arthur X – O reino do Galinho de Ouro na corte da Imperatriz.

Por fim, a Grande Rio dá sinais de que finalmente se recuperou do trágico incêndio que destruiu totalmente o seu barracão às vésperas do Carnaval de 2011. A escola quer retomar sua saga em busca do primeiro título, que foi interrompida pelo acidente. Entre 2003 e 2010, a tricolor da Baixada Fluminense conquistou nada menos do que três vice-campeonatos e outros três terceiro lugares. Para 2014, a agremiação trouxe o jovem e talentoso carnavalesco Fábio Ricardo e o experiente diretor de Carnaval Ricardo Fernandes. E, como sempre, a bateria do Mestre Ciça também é um dos pontos fortes da escola. A lista de agremiações é completada por União da Ilha (É brinquedo, é brincadeira: a Ilha vai levantar poeira!), São Clemente (Favela) e a recém-chegada Império da Tijuca (Batuk) – escolas que, apesar de menos competitivas, têm condição de promover na avenida o que, afinal, é o esperado: diversão.

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