Clique e assine a partir de 9,90/mês

Sabe como limpar uma tela de Van Gogh? Com saliva

Talvez para evitar piadinhas, muitas vezes a técnica recebe o nome de 'solução enzimática'

Por Da redação - Atualizado em 28 out 2016, 10h55 - Publicado em 28 out 2016, 10h45

O pó é o pior inimigo da conservação de obras de arte e, contra ele, a saliva pode ser um aliado inesperado. Essa é uma das principais revelações do novo áudio-guia sobre a manutenção do museu de arte moderna de Nova York, o Moma, realizada pela artista Nina Katchadourian. Ela se encontrou com especialistas que se encarregam da delicada tarefa de conservar e limpar algumas das obras mais importantes do mundo, expostas em um dos pontos de Manhattan.

A artista descobriu que, entre outras obras, Vaso com Flores, de Pablo Picasso, que está há anos nas paredes do museu, foi limpa com saliva, um método que, embora aprovado por especialistas, surpreende os neófitos. “Sua composição é eficaz por ser 90% água e o resto, composto por outros agentes e minerais”, afirma o especialista na tarefa Anny Aviram, há mais de 40 anos no Moma. “É difícil, às vezes, falar deste procedimento porque tem muitas conotações engraçadas”, reconhece Aviram. Talvez para evitar piadinhas, muitas vezes a técnica recebe o nome de “solução enzimática”.

O método é lento porque ninguém consegue passar oito horas limpando um quadro com saliva. Além disso, nem sempre uma saliva está habilitada para a limpeza — depende do que a pessoa tiver comido.  “Primeiro, passamos um cotonete com saliva e depois outro seco para retirar a sujeira”, explica Anny. Ela limpou o pó de até três Picassos de grandes dimensões com a própria saliva, uma tarefa que levou meses cada um, afirma.

A artista californiana Nina Katchadourian recebeu a incumbência de realizar um áudio guia sobre o museu centrado na conservação das obras e logo após se deu conta de que falaria sobre um elemento central: o pó. “É um elemento de fora do museu, que vem em parte com as 12 000 pessoas que o visitam diariamente. E há o fato de que no final todos nos reduzimos a pó.”

Continua após a publicidade

Ao longo de vários meses, Nina teve passe livre para todas as áreas do museu e se reuniu além de com artistas e especialistas, além de encarregados da manutenção e limpeza do edifício. Todos trabalham para que não se vejam afetadas obras tão importantes para o patrimônio artístico mundial como A Noite Estrelada, de Vincent Van Gogh; A Persistência da Memória, de Salvador Dalí; As Senhoritas de Avignon, de Pablo Picasso, ou As Latas de Sopa Campbell, de Andy Warhol.

“O Santo Graal do Moma é se manter em 70 graus Farenheit (21,1 graus centígrados) e 50% de umidade relativa”, conta Nelson Nievas, um dos encarregados de manutenção do edifício. Segundo ele, existe um gerador elétrico para emergências e um plano de urgência caso seja necessário reunir todas as obras em uma sala onde a temperatura e condições conservariam sem problemas, durante dias, as peças.

O museu não poupa em condutores de ar e outros instrumentos para manter na temperatura adequada um enorme edifício de seis andares com vários acessos à rua, ao terraço e com duas cafeterias.  Por todas essas saídas ao exterior entra o pó, assim como outras sujeiras, especialmente através dos visitantes que a cada dia cruzam suas portas. A arquitetura própria do edifico principal do Moma, na Quinta avenida com a rua 53, em Manhattan, faz com que o pó suba para em um “efeito chaminé”, explica o diretor de operações no edifício, Julio Vázquez.

A peça mais complicada de limpar do museu está, precisamente, nas alturas. Trata-se de um helicóptero Bell 47 D1 de 1945 da coleção permanente do Moma e que está pendurado no teto, o que obriga a utilizar quatro vezes por ano um grande elevador, vários braços extensíveis e toneladas de paciência.

Continua após a publicidade

A obsessão por evitar que o pó se acumule no museu é tão grande que proliferam entre os empregados várias de brincadeiras internas. Ellen Moody, uma das conservadoras, fez um coelho com nós formados por partículas de pó recolhidas e colocou um laço no mesmo antes de “presenteá-lo” a seu companheiros como lembrança e homenagem ao trabalho.

(Com agência EFE)

Publicidade