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Remédio que mata

O ótimo 'Boy Erased' e o mediano 'O Mau Exemplo de Cameron Post' mostram como a “cura gay” é uma ideia não apenas equivocada, mas potencialmente letal

É comum que as distribuidoras programem para perto das indicações ao Oscar filmes que, apesar das perspectivas comerciais modestas, vêm cercados daquele zum-zum-zum de premiação — e então cancelem o lançamento desses mesmos filmes quando eles não conseguem vaga em nenhuma categoria de peso. O procedimento entristece os cinéfilos, mas não causa comoção popular. No caso de Boy ErasedUma Verdade Anulada (Boy Erased, Estados Unidos/Austrália, 2018), porém, houve grita: em razão do tema do filme — a chamada “cura gay” —, alardeou-se que haveria uma conspiração moralista para suprimir a exibição do drama dirigido pelo australiano Joel Edgerton e protagonizado por Lucas Hedges, Nicole Kidman e Russell Crowe. O fato é que Boy Erased não só ficou fora da lista do Oscar como fez menos de 11 milhões de dólares em bilheteria. Tem melhores chances em DVD e nas plataformas digitais, às quais acaba de chegar. Aliás, o filme merece a chance: sem oportunismo nem sensacionalismo, e com garra, Edgerton narra o caso verídico de um rapaz pressionado a internar-se em um programa de “cura gay” para falar, num escopo maior, de como as expectativas dos pais em relação aos filhos podem ser massacrantes para uns e outros e destruir precisamente o que se almeja — a harmonia familiar e as chances de felicidade.

VERSÃO TEEN - Chloë (à dir.) em Cameron Post: “terapeutas” despreparados

VERSÃO TEEN - Chloë (à dir.) em Cameron Post: “terapeutas” despreparados (//Divulgação)

Jared Eamons (Hedges) é o alter ego de Garrard Conley, em cujas memórias o roteiro se baseia. Filho de pais muito religiosos (Nicole e Crowe), e ele próprio devoto, Jared tem dúvidas acerca de sua sexualidade. Quando sofre uma horrível tentativa de estupro por parte de um amigo, o pai decide interná-lo; a mãe hesita mas concorda. E começa, então, o violento processo de “conversão heterossexual” na instituição de um pastor interpretado pelo próprio Edgerton. O que leva Jared ao limite, paradoxalmente, é a tensão que se forma entre sua fé e a do pastor — e sobretudo a insistência deste em que tem de haver algo de errado com sua família, ou ele não se sentiria atraído por pessoas do mesmo sexo (os créditos finais contêm mais informações sobre o pastor, e elas são exemplares das angústias mal resolvidas daqueles que se arvoram em “curar” gays). A substituição da conformidade pela honestidade, entre Jared e seus pais, é um processo também ele penoso. Mas é construtivo, e não destrutivo.

De modo bem mais superficial, também O Mau Exemplo de Cameron Post (The Miseducation of Cameron Post, Estados Unidos, 2018), já em cartaz no país, lida com as promessas não só enganosas como perigosas de purgar a homossexualidade: o filme, estrelado por Chloë Grace Moretz, enfatiza o despreparo dos autodesignados terapeutas, e os desastres a que ele induz. É uma versão mais light e esquemática, voltada para o público adolescente, do brutal Boy Erased. Nos dois casos, porém, a conclusão é a mesma: remédios para curar aquilo que não é doença costumam ser altamente letais.

Publicado em VEJA de 24 de abril de 2019, edição nº 2631

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