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Rainhas e paradinhas: nas baterias, a assinatura das escolas de samba

Inovações do carnaval começaram com a diferenciação da percussão. Aos poucos, carnavalescos descobriram que nem todo avanço cai bem no samba

A Rainha de Bateria é uma invenção da Mocidade: a mulata Adele Fátima exercia, na década de 1970, a nobre função, mas ainda não era chamada de rainha. A primeira delas foi a modelo Monique Evans, que ganhou o “cargo” em 1985. Desde então já se viu todo o tipo de majestade, algumas de fato e de direito – encabeçando a lista, Luiza Brunet e Luma de Oliveira, Sônia Capeta e Quitéria Chagas, estas duas mais no pé, aquelas mais no carisma

Os mais antigos garantem que, até as décadas de 1950 e 1960, era possível saber qual escola de samba estava desfilando apenas pelo som de sua bateria – o que hoje não se consegue mais. Todas eram originais, à sua maneira. Ao longe, a Mangueira era reconhecida – ainda é – não só “pelo som dos seus tamborins e o rufar do seu tambor”, mas principalmente por não se utilizar do surdo de segunda, fazendo uma marcação sem resposta. Já a Vila Isabel até hoje inverte os papéis do surdo, usando o de marcação mais agudo que o de resposta.

O sambista e romancista Nei Lopes recorda a introdução dos pratos de banda na bateria do Império Serrano, façanha que saiu da cachola do ritmista malabarista Calixto, nos idos de 1950. O Império, seguindo uma sugestão de mestre Darcy do Jongo, também se tornou célebre pelo harmonioso naipe de agogôs e frigideiras, que deixavam Quitéria Chegas “toda arrepiada” nos cinco anos em que ela desfilou à frente dos ritmistas.

A Rainha de Bateria é uma invenção da Mocidade: a mulata Adele Fátima exercia, na década de 1970, a nobre função, mas ainda não era chamada de rainha. A primeira delas foi a modelo Monique Evans, que ganhou o “cargo” em 1985. Desde então já se viu todo o tipo de majestade, algumas de fato e de direito – encabeçando a lista, Luiza Brunet e Luma de Oliveira, Sônia Capeta e Quitéria Chagas, estas duas mais no pé, aquelas mais no carisma.

Renata Santos é rainha de bateria da Mangueira Renata Santos é rainha de bateria da Mangueira

Renata Santos é rainha de bateria da Mangueira (/)

“A Rainha de Bateria me parece ser uma inovação idiota. Não ganha ponto e pode fazer a escola se ferrar. O falecido mestre Louro não permitia ninguém rebolando na frente dos ritmistas do Salgueiro”, diz Luiz Antonio Simas, que, em matéria de novidade, prefere recuar até os anos 1930, quando foi criada a comissão de frente: “Nasceu por iniciativa da Portela. O curioso é que a comissão de frente era, no início, conhecida como ala dos cacetes, por ser formada pelos componentes mais velhos. A mesma Portela foi a primeira a desfilar com alegoria. No caso, um sujeito dentro de uma barrica representando a conquista do mundo pelo ritmo do samba”.

Ao Salgueiro – cujo lema é “Nem melhor, nem pior: apenas diferente” – podem ser atribuídas duas revoluções. A primeira foi trazer para um plano de destaque a figura e a problemática do negro, com o enredo “Navio negreiro”, de 1957. A segunda, de ordem mais estética do que ética, começou com a chegada à escola de Fernando Pamplona para atuar como carnavalesco. Homem de teatro, ele propôs o tema “Zumbi dos Palmares”, com o qual se iniciou (e Joãosinho Trinta continuou com brilhantismo) o espetáculo visual que o desfile é hoje. Entre outras inovações de 1960, Pamplona pôs espelhos nas fantasias, conseguindo um belo e inédito efeito de iluminação.

De lá para cá, não há desfile sem uma pitada de ousadia. Ou de tecnologia, como fez a Portela em 1973, e se deu mal. Para evitar que o samba “Pasárgada”, de David Correa, atravessasse – o sistema de som na Avenida Presidente Vargas era precário – a escola distribuiu rádios transmissores entre diretores de ala para que todos soubessem o trecho do que estava sendo cantado. “Alguns diretores, depois de tomar umas e outras, sintonizaram tudo errado e a catástrofe foi inevitável. Cada parte da escola cantava uma parte diferente do samba”, conta Simas.

Quem arrisca nem sempre petisca. Um avanço tecnológico de gosto duvidoso foi o “homem voador” da Grande Rio. Fez sua estreia em 2001, com direito a repeteco no ano seguinte. Resgatada em 2010, um problema na engenhoca provocou uma explosão que a impediu de subir.

“Os tripés da comissão de frente viraram coqueluche a partir dos anos 2000. Todo mundo copiou, mas hoje se discute os excessos e o quanto eles têm prejudicado a evolução”, nota Fábio Fabato, que ainda aponta uma mudança de ordem técnica: “A Beija-Flor, em 1998, criou uma comissão de carnaval, abolindo a figura do carnavalesco sozinho e todo poderoso. Deu certo e algumas escolas tomaram o mesmo caminho”, avalia.

O carro do CNA, que consagrou Paulo Barros como o criador das alegorias humanas: para este ano, suspresa deve ser com 'Avatar' O carro do CNA, que consagrou Paulo Barros como o criador das alegorias humanas: para este ano, suspresa deve ser com ‘Avatar’

O carro do CNA, que consagrou Paulo Barros como o criador das alegorias humanas: para este ano, suspresa deve ser com ‘Avatar’ (/)

Maior sucesso contemporâneo, as alegorias humanas foram criadas pelo carnavalesco Paulo Barros, para a Unidos da Tijuca, em 2004. O carro do DNA – formado por uma pirâmide com 127 componentes – deixou o Sambódromo de boca aberta. Mas não levou o título, que só veio em 2010, quando a novidade já estava assimilada e copiada. Para 2012, a aposta é o kuduro de Quitéria Chagas. E já tem gente que não vê a hora de fevereiro de chegar. “Qualquer inovação envolvendo rainhas de bateria será melhor do que a que tentou a Grande Rio em 1994. A escola de Caxias colocou à frente dos ritmistas o cabeleireiro José Reynaldo. Já pensou se a moda pega?”, pergunta Simas, batendo na madeira.

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