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‘Quando canto, penso num espaço aberto’, disse João Gilberto a VEJA em 71

Em entrevista, cantor e compositor falou sobre como era se apresentar nos Estados Unidos e como achava que voz e violão deviam se encaixar em uma música

Foi às Páginas Amarelas de VEJA, em 1971, que João Gilberto deu sua primeira entrevista exclusiva. Ao redator Tárik de Souza, o pai da bossa nova falou sobre o que sentia ao se apresentar nos Estados Unidos, seu desconforto em dar entrevistas e como achava que voz e violão deviam se encaixar em uma música. O músico morreu neste sábado, 6, aos 88 anos.

“Você vai ligar o gravador? Olha, não ligue não”, começou o cantor. “Vou lhe explicar por quê. Eu preferia que ao invés de entrevista você fizesse uma reportagem. Sabe por quê? Ih, rapaz. Sabe que muitas entrevistas que eu deu, me arrependi do que eu tinha falado? Eu mudo muito de ideias. As coisas mudam muito, a música, os lugares…”

Confira abaixo algumas das respostas do músico e leia a íntegra a entrevista (disponível para assinantes):

Quando eu canto, penso num espaço claro e aberto onde vou colocar meus sons. É como se eu estivesse escrevendo num pedaço de papel em branco: se existem outros sons à minha volta, essas vibrações interferem e prejudicam o desenho limpo da música.

Eu sentia que tinha que corresponder. Pedia a Deus que me libertasse de todos os problemas, que me fizesse bem descontraído, para que a música passasse por mim sem encontrar barreiras. Que eu fosse apenas um veículo. Queria que o público visse ali não o João Gilberto, mas o Brasil, que eles sentissem, a partir de mim, tudo o que eu trazia, de experiências vividas. Eu queria ser acima de tudo, naquele momento, um brasileiro.

Sobre como se sentia ao se apresentar nos Estados Unidos

Geralmente o cantor se preocupa com a voz emitida da garganta e sobe muito, deixando o violão – ou qualquer outro instrumento de acompanhamento – falando sozinho lá embaixo. É preciso que o som da voz encaixe bem no do violão, com a precisão de um golpe de caratê, e a letra não perca sua coerência poética.

O que eu quero fazer é pegar o Tom Jobim pelo braço e sair com ele fazendo shows em faculdades, sentindo a repercussão, conversando com o pessoal. Mas, por favor, não publique isso. Que o Tom é capaz de ler, pegar um avião e ir se esconder no Japão.

Sobre seus planos do que fazer no Brasil

 (VEJA/Reprodução)