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‘Pequeno Segredo’ emociona, mas dificilmente chegará ao Oscar

Filme lança mão de uma boa história real para falar sobre família e morte, mas peca por falta de originalidade

Em momentos de crise política, quem não é Aquarius será criticado – ou elogiado, dependendo da posição ocupada na guerra dos extremos. O pensamento é uma bobagem que fez Pequeno Segredo nascer prematuro e controverso, muito antes de sua estreia – o filme atualmente é exibido em lançamento limitado para cumprir uma regra de elegibilidade do Oscar, a estreia nacional está prevista para novembro.

Para quem não acompanhou a polêmica, o filme dirigido por David Schurmann foi o selecionado pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil na corrida por uma almejada vaga na categoria de filme estrangeiro da premiação hollywoodiana. O favorito, Aquarius, foi preterido e seu diretor, Kleber Mendonça Filho, acredita que a decisão foi política. Se foi ou não, difícil saber. Mas dá para apostar que foi uma escolha equivocada.

Aquarius é mais original e bem filmado que Pequeno Segredo. Contudo, o filme de Schurmann tem seu charme. Ele erra na mão com o uso de alguns clichês melodramáticos, mas oferece uma estrutura narrativa bem esquematizada e uma história real que emociona, daquelas que a ficção não poderia produzir. Os mais sensíveis, podem esperar por lágrimas.

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A trama é inspirada no livro Pequeno Segredo – A Lição de Vida de Kat para a Família Schurmann (HarperCollins), escrito por Heloisa Schurmann, matriarca da família de velejadores. Em uma de suas viagens à Nova Zelândia, Heloisa (vivida por Julia Lemmertz) e sua família conhecem o casal formado pelo neozelandês Robert (Erroll Shand) e a amazonense Jeanne (Maria Flor). Anos depois, a rápida amizade dos dois núcleos resultará na adoção de menina Kat (Mariana Goulart) pelos Schurmann, quando Robert e Jeanne ficam doentes.

Dividido em três braços, o roteiro se desenrola mesclando a relação de Kat com os Schurmann, com o romance de Robert e Jeanne e a resistência da família neozelandesa, encabeçada pela atriz Fionnula Flanagan (de Lost e Os Outros), que não aceita o casamento do filho com uma brasileira. Ambientados em períodos de tempos distintos, os núcleos se conectam no ritmo dos acontecimentos, formando uma estrutura narrativa organizada, sem pontas soltas.

Os ingredientes são bons, mas Schurmann mostra falta de personalidade e músculos para fazer de Pequeno Segredo um grande filme. A estética americanizada, a trilha sonora excessiva e os clichês típicos de uma sessão da tarde enfraquecem a produção. A direção dos atores também deixa a desejar.

Tais escolhas artísticas podem ser estranhamente confundidas com o rótulo “filme de Oscar”. Mas a Academia de Hollywood não é assim tão previsível. Prova disso são os últimos vencedores da categoria principal, Spotlight, em 2016, e Birdman, em 2015, que fogem do padrão melodrama para chorar. O mesmo na categoria de filme estrangeiro, em que os ousados O Filho de Saul (Hungria) e Ida (Polônia) foram os vencedores nas duas ultimas edições.

Originalidade é importante para o Oscar, e principalmente para o cinema como um todo. Schurmann, já velho de guerra quando o assunto é filmar documentários sobre sua família, tem potencial, mas precisa sair da zona de conforto criada pelo sobrenome.