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‘Peanuts’, a tirinha de Snoopy, Charlie Brown e companhia, completa 60 anos e ganha homenagens

Há dez anos, Charles Schulz, o seu autor, morreu nos EUA

Quando o desenhista americano Charles Schulz (foto) publicou a última tirinha diária de Peanuts, em 3 de janeiro de 2000, aos 77 anos e 50 anos depois de criá-la, as historietas de Charlie Brown e seus amigos eram publicadas em 2.600 jornais de 75 países, em 21 idiomas, e lidas por aproximadamente 350 milhões de pessoas.

“Caros amigos, fui um afortunado. Peanuts é a realização de uma ambição de infância”, escreveu Schulz, que dizia ser “impossível criar humor fora da realidade”, na tirinha de despedida em que Snoopy aparece martelando o recado em uma máquina de escrever. Em outubro de 2010, as tirinhas completam 60 anos – mas começam, desde já, a ser celebradas (ao final do texto, confira uma seleção de produtos que homenageiam a data).

Schulz era um operário do próprio talento. Nunca teve assistente nem permitiu que outros desenhassem as tirinhas. Até descobrir que estava com câncer, em 1999, desenhou diariamente trechos de uma obra que é considerada um compêndio de humor refinado, melancólico e existencialista. Ou, nas palavras do escritor italiano Umberto Eco, “uma pequena comédia humana” sobre a vida moderna.

Filho de um barbeiro, Schulz foi um péssimo aluno na escola. Disperso e recluso, desde cedo revelou talento para o desenho, influenciado principalmente pelo personagem Popeye, no que teve apoio da mãe, que o matriculou num curso de história dos quadrinhos aberto à comunidade, na Universidade de Minnesota. O resto é história.

Convocado para a II Guerra Mundial, em 1943, o desenhista abandonou a prancheta e serviu na França e na Alemanha, partindo três dias depois da morte da mãe que tanto o apoiou, fato de que, segundo ele, jamais foi capaz de se recuperar.

Ao retornar a Minneapolis, começou a publicar as tirinhas que deram origem a Peanuts, à época chamadas Li’l Folk, no jornal St. Paul Pioneer Press, a cada quinze dias. Quando pediu aumento e mais espaço, foi demitido. Schulz mudou-se pouco depois para Santa Rosa, na Califórnia, onde viveu até a morte. Mas foi Nova York que mudou sua vida.

Durante dois anos ele enviou suas tirinhas para o United Features Syndicate, uma agência de notícia que distribuía tirinhas pelos correios para serem publicadas em jornais dos EUA inteiro. Foi recusado até conseguir marcar uma reunião. Saiu de lá com um contrato e no primeiro fim de semana como membro da casa, foi publicado em sete jornais. Em seis anos, só nos Estados Unidos eles somavam cem publicações. Schulz só fazia uma ressalva: preferia Li’l Folks, embora não tenha condicionado o contrato à manutenção do nome Peanuts, dado pela United.

Peanuts - Charlie Brown Peanuts – Charlie Brown

Peanuts – Charlie Brown (/)

Tratando de questões então distantes do humor diário dos jornais, como individualismo, melancolia, depressão, sarcasmo e as dificuldades das relações sociais, os personagens infantis, mas de caráter adulto, como Charlie Brown, Lucy e Linus, conquistaram o público e a crítica. Observações inteligentes sobre o cotidiano e até a política elevaram Schulz ao posto de desenhista mais adorado do país e, aos poucos, do mundo. Com suas “crianças” precocemente maduras, introduziu os grandes problemas americanos do pós-guerra nos temas tratados nos quadrinhos, discutindo abertamente a condição de deprimido e estupefação diante de um país cada vez mais conservador e moralmente saturado.

Para Bill Waterson, criador de Calvin & Haroldo, outra tirinha ícone do século 20, “Peanuts definiu o que é a tirinha moderna” pela honestidade emocional, a maneira séria como tratou as crianças e o desenho limpo e minimalista e foi determinante para o surgimento de Mafalda, do argentino Quino, e Hagar, O Horrível, de Dik Browne. Robert Thompson, professor de cultura popular da Universidade de Syracuse, afirmou que “Peanuts é comparável a obra de Tolstoi ou a uma ópera de Wagner”.

Não bastasse influenciar e definir parâmetros para seus pares, Snoopy virou símbolo da NASA, a agência espacial americana, e deu nome à primeira missão não tripulada a chegar à lua, em 1969, mesmo ano em que ele apresentou na TV o especial O Natal de Charlie Brown, para uma audiência de 55 milhões de pessoas nos EUA. A animação venceu o Emmy daquele ano e foi a primeira de trinta. Musicais como Meu amigo Charlie Brown lotaram por meses os teatros da Broadway e ganharam remontagens na Europa e no Japão. No Brasil, a editora Ebal começou a publicar as tirinhas em 1962, traduzidas pelo cartunista Ziraldo, que batizou Peanuts de Minduim.

Casado e pai de cinco filhos, Shculz acumulou ao longo da vida 17.897 tirinhas produzidas diariamente com lápis de nanquim e amealhou pelo menos 1 bilhão de dólares com o licenciamento de 20 mil produtos no mundo inteiro. Jim Davis, criador de Garfield, disse “Schulz inventou a indústria do licenciamento”. Suas tantas histórias estão espalhadas em 300 milhões de livros vendidos no mundo inteiro, traduzidos em 26 idiomas e alguns originais expostos no museu que leva o nome do desenhista, na Califórnia.

No dia 12 de fevereiro de 2000, às 21h45, Sparky (um personagem de um quadrinho americano dos anos 1920), como era chamado pelos pais, morreu de câncer, poucas horas antes dos jornais publicarem a última tirinha inédita do Snoopy, num domingo. Autor e obra despediram-se juntos.