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Paulo Barros sem medo de ser campeão

Forte candidato ao bi, carnavalesco da Unidos da Tijuca levará para a avenida alegoria humana sobre 'Avatar' e ônibus de 'Priscila, a rainha do deserto'

Por Rafael Lemos - 2 mar 2011, 11h56

“Procuro perceber o que as pessoas acham. Vejo com os olhos dos outros. Encantar os olhos alheios é a grande ferramenta do sucesso”

Desde que surgiu para o mundo com o revolucionário carro do DNA, em 2004, o carnavalesco Paulo Barros sempre foi sinônimo de inovação e criatividade. Mas, até o ano passado, seu talento não havia rendido um título no Grupo Especial. Barros, enfim, perdeu o medo de ser campeão. O reconhecimento dos jurados demorou mas veio com a mesma Unidos da Tijuca que o projetou, e da qual ficou afastado por três carnavais.

Ano após ano, os desfiles de Paulo Barros tiveram o mérito de reacender o interesse de um público há muito cansado de fórmulas desgastadas, como o repetitivo balé das comissões de frente ou os velhos enredos sobre a miscigenação entre negros, índios e brancos no Brasil. A pergunta inevitável, que se faz presente todos os anos, é sempre a mesma: qual será o próximo passo de Paulo Barros?

Obsessivo com o sigilo sobre seus desfiles até o último minuto, o carnavalesco cria em torno de si mesmo uma nuvem de fumaça difícil de transpor. Ainda assim, algumas pistas simplesmente vazam. Já se sabe, por exemplo, que haverá um carro dedicado ao filme Avatar – uma alegoria humana com 208 pessoas; outro sobre as aventuras de Indiana Jones; um ônibus com Priscila, a rainha do deserto; e mais de 15 alpinistas pendurados no carro da África.

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Mas, no fim das contas, todas essas pistas mais confundem do que esclarecem – principalmente, se lembrarmos que o enredo Esta noite levarei sua alma fala do medo no cinema. Em entrevista ao site de VEJA, Paulo Barros fala com a autoconfiança de um campeão – que corre o sério risco de conquistar bicampeonato nos próximos dias. Medo? Só mesmo de montanha russa.

É verdade que esse ano a sensação do desfile da Tijuca serão mais os efeitos especiais do que as alegorias humanas? Não sei porque as pessoas ficam preocupadas em fazer esse tipo de análise antecipada. As alegorias humanas não são uma receita, uma obrigação. Ano passado, por exemplo, só tive um carro desse tipo. Esse ano, serão três. No carro da África, teremos um grupo com mais de 15 pessoas usando técnicas de alpinismo. Mas o meu conselho é que as pessoas fiquem de olho no desfile inteiro, que estará recheado de momentos divertidos e de contemplação. No ano passado, quando fomos campeões, algumas pessoas colocaram o foco na comissão de frente, como se este tivesse sido o único ponto alto do desfile.

Depois de anos sendo alvo de críticas de outros carnavalescos, hoje é inegável a sua influência do trabalho de muitos deles. Como você encara essa mudança? Vejo como uma coisa normal. Não tenho a petulância ou a pretensão de ser melhor do que ninguém. Sempre que acontece algo novo, seja no carnaval ou em outro ramo, as pessoas tendem a querer embarcar na onda. Apesar de combaterem com as palavras, eles acabam embarcando. Para mim, não é um problema. Até me envaidece.

Esse ano, são poucas as escolas capazes de fazer frente à Unidos da Tijuca. Qual o adversário a ser batido? Nosso grande adversário é a própria escola. Não tenho medo de nada – exceto de montanha russa. Nem sei como estão as outras escolas. Não me preocupo com isso. O único medo que carrego no dia-a-dia é o da falta de comprometimento. Costumo dizer que meu inimigo mora aqui dentro. A partir do momento em que alguém aqui deixar de executar algo que lhe foi estabelecido, aí teremos problemas.

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Existe algum clima de já ganhou dentro da escola? Engraçado. Não temos isso aqui. Quando preparo um desfile penso apenas no resultado. Mas não é a apuração, e sim o resultado plástico. Para mim, o importante é fazer um grande espetáculo. E acho que toda a escola tem esse pensamento. Ninguém se sente campeão por antecipação.

Em um ano em que três escolas ficaram de fora da disputa por causa do incêndio na Cidade do Samba, um eventual título terá o mesmo sabor? Não sei se terá. Mas tem uma coisa também: o jogo é esse. Não acho que esteja mais fácil esse ano. Eu, particularmente, fiquei muito chateado com o que aconteceu. Acho que nenhuma escola merece uma coisa dessas. A gente se coloca no lugar deles. É ruim para a festa, para o público e também para o jogo da disputa. Mas não acho que exista essa coisa de favorita não. Em 2004, a Tijuca não era favorita, mas surpreendemos e fomos vice-campeões. Quem sabe alguém não surpreende esse ano também?

Você trouxe uma nova visão de desfile para o Carnaval. O que você enxergou que os outros carnavalescos não estavam vendo? O segredo é que, quando faço um desfile, não faço para mim ou para me satisfazer. Procuro perceber o que as pessoas acham. Vejo com os olhos dos outros. Encantar os olhos alheios é a grande ferramenta do sucesso. E posso seguir vários caminhos para envolver o público. Usar ícones pops, como Batman ou Michael Jackson, é um deles. Mas não é uma receita. Esse ano, teremos o barqueiro Caronte, que é um personagem pouco conhecido da mitologia grega. Ele é mais conhecido pelo seu nome vulgar: morte. A gente vai brincar com a morte, fazer chacota. Essa é uma prova de que nem todo elemento precisa ser pop. O importante é a maneira como vamos trabalhar isso. À primeira vista, quem vem no barracão pode pensar que vamos fazer um desfile dark, sombrio. Maso resultado final será justamente o contrário disso.

O carro do CNA, que consagrou Paulo Barros como o criador das alegorias humanas: para este ano, suspresa deve ser com 'Avatar'
O carro do CNA, que consagrou Paulo Barros como o criador das alegorias humanas: para este ano, suspresa deve ser com ‘Avatar’ VEJA

Depois de se acostumar a ter que ser criativo com poucos recursos, como é fazer um Carnaval orçado em mais de 9 milhões de reais? Não acompanho essa coisa do dinheiro. Surfo na minha imaginação e eles me dizem se dá para fazer ou não. Claro que é muito mais fácil ser criativo hoje, com dinheiro. Mas também já estava na hora, né? Passei a vida inteira ralando no Grupo de Acesso. Agora é a hora de comer o filé mignon.

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Como nasceu o enredo sobre o medo? Não tenho banco de enredos. Sempre quis falar sobre o cinema, e depois do carnaval me veio a palavra medo à cabeça. Trata-se de uma história inventada, fruto da imaginação. Não ligo para essa coisa da história. Para mim, o desfile tem que ser plasticamente bom. É o que procuro. A história é fácil. Com palavras, você convence até o mais ferrenho descrente. Sempre fui contra esses enredos com historinhas pré-concebidas, tiradas do livrinho. Tem que criar! Me criticam dizendo que é fácil colocar o Batman na Avenida. mas também é fácil fazer carro sobre África, esfinge do Egito ou aquelas estátuas da Roma antiga. Referências visuais a gente usa, não tem jeito. Então, não me acusem de cópia, porque todo mundo copia. E também não ligo quando me copiam.

O que o público pode esperar do Paulo Barros e da Unidos da Tijuca esse ano? Nós vamos fazer as pessoas se divertirem. Acho que temos conseguido isso.A prova são as recordações desses carnavais que temos feito. Todos lembram dos carros. ficaram na memória. Já outras escolas passam batidas. É pluma por pluma, brilho por brilho, luxo por luxo. Tem escola que se repetir um carro de 10 anos atrás, ninguém vai nem notar. É tudo igual. É que nem bolo. Esse ano, teremos carros grandes, mas dentro dos limites de segurança. Gosto de correr risco, mas não há necessidade de fazer um carro com mais de 10 metros e correr o risco de vê-lo bater na torre de TV. O carro do DNA, em 2004, tinha 7 metros e engoliu tudo. Foi o menor carro que já fiz. É a prova de que tamanho não é documento. E tenha certeza de que sempre vou fazer algo didático. Assim, ninguém vai precisar de manual de instruções para entender o desfile.

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