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Paixão, obsessão e morte

Como o doceiro, flamenguista e filho amoroso Rodrigo de Pádua foi da idolatria a Ana Hickmann ao ódio pela apresentadora, e o passo a passo da tragédia que resultou na sua morte

A apresentadora Ana Hickmann, da Rede Record, saiu cedinho de seu apartamento em São Paulo, no sábado 21, usando um vestido curto colorido e sandálias de salto alto. Seguiu com o motorista para o Aeroporto de Congonhas e, às 8h40, voou para Belo Horizonte acompanhada do sócio, Gustavo Correa, o Guto, e da mulher dele, Giovana Oliveira. Lá, apresentaria a linha de roupas da marca que leva o seu nome. Mais cedo, ainda de madrugada, o doceiro Rodrigo Augusto de Pádua, de 30 anos, havia embarcado em um ônibus na rodoviária de Juiz de Fora rumo ao mesmo destino. Viajou por quatro horas para chegar à capital mineira sem que ninguém desconfiasse que trazia consigo um revólver (calibre 38, carregado com cinco balas) e um plano: “acertar as contas” com a estrela de televisão que ele um dia idolatrara, mas de quem agora tinha ódio.

Ana Hickmann, 35 anos, casada e mãe de um filho, ocupou a suíte 912 no Hotel Caesar Business. Como não pretendia dormir na cidade, ela ficou com seu staff num quarto só, transformado em camarim. Rodrigo se hospedou no mesmo hotel (não se sabe como descobriu onde Ana ficaria). Registrou-se com o nome do pai. Ao chegar, foi direto ao restaurante do térreo e pediu uma pizza portuguesa. Em sua suíte, Ana aguardava o cabeleireiro Júlio César Figueiredo. Guto desceu por volta do meio-dia para almoçar no mesmo restaurante, onde, àquela altura, Rodrigo reclamava em voz alta com os garçons. Dizia que a sua pizza estava muito apimentada. A cena chamou a atenção de Guto.

Quando já tomava café, por volta das 13 horas, Guto recebeu uma mensagem de Giovana pedindo que pegasse no quarto duas malas com as roupas que seriam apresentadas por Ana e as entregasse a uma produtora que chegaria ao hotel em instantes. Sem que Guto soubesse, Rodrigo observava seus movimentos. Naquele momento, na recepção do hotel, Júlio, o cabeleireiro, pedia ao recepcionista que o anunciasse a Ana. O desdobramento dessa sequência foi uma cena de terror que durou pouco mais de meia hora, deixou uma pessoa morta, outra ferida e uma família por muito tempo aterrorizada.

Guto subiu, pegou as malas e seguiu pelo corredor puxando as bagagens de rodinhas. Quando apertou o botão do elevador, Rodrigo já estava ao seu lado. “Quieto, senão eu te mato aqui mesmo”, disse, já com a arma encostada na sua cabeça. Guto chegou a oferecer-lhe o relógio, achando que fosse um assalto. Rodrigo disse que queria ir ao apartamento de Ana. Guto tentou despistar, dizendo que ela não se encontrava no quarto. Rodrigo respondeu que sabia que ela estava lá e voltou a ameaçá-lo. Quando Guto bateu à porta da suíte, a apresentadora abriu de pronto, acreditando ser o cabeleireiro. Rodrigo, então, apontou a arma para a cabeça dela e anunciou: “Vim me acertar com você, sua piranha”. Ana tentou acalmá-lo, mas Rodrigo gritava e perguntava por que ela havia posto um ponto-final no “relacionamento” deles. Tenso e tremendo, ordenou aos presentes que se sentassem num canto do quarto, de costas para ele. Guto implorou para “morrer de frente”. Giovana rezava. Ana tentava negociar. Rodrigo a insultava e exigia que ela confirmasse a “relação” dos dois. “Confessa pra eles o que houve entre a gente”, esbravejava, com o cano da arma apontado para a cabeça da apresentadora.

Passados quase trinta minutos, com as vítimas sempre imóveis, Ana, exausta, virou o rosto para encarar seu algoz. Ao ver a arma em sua direção e o dedo de Rodrigo no gatilho, pensou: “Acabou”. Começou a perder os sentidos. Nesse momento, Giovana passou o braço em volta dos seus ombros para apoiá-la. Rodrigo gritava que Ana estava fingindo. “Se você desmaiar, vai morrer.” Em seguida, fez o primeiro disparo em direção à nuca da apresentadora. Acertou o braço de Giovana. Com o susto do estampido, os três se levantaram e Rodrigo fez novo disparo. Acertou Giovana de novo, dessa vez acima da virilha. A bala percorreu o abdômen, perfurou o intestino e se alojou acima do fêmur. Do lado de fora, o cabeleireiro parou de bater forte na porta e correu para pedir ajuda. “Até ouvir o tiro, achava que era uma briga”, conta ele, que gravou o que estava ouvindo. Ao notar que Rodrigo havia tirado o dedo do gatilho, Guto avançou sobre ele e gritou para as mulheres “que fugissem”. Na suíte, ele e Rodrigo passaram a lutar no chão. Atracados um no outro, seguravam juntos o cano do revólver, disputando o gatilho. No embate, um tiro atingiu a parede. Guto, mais forte que Rodrigo, disse à polícia que conseguiu apontar a arma para a cabeça do adversário e acertou dois tiros em sua nuca. O carpete ficou ensopado de sangue. Rodrigo morreu na hora.

Nas redes sociais, Rodrigo é um velho conhecido dos mais de 15 milhões de fãs que seguem Ana Hickmann. Foi nesse universo que ele passou a nutrir a paixão doentia pela apresentadora. Em novembro, Ana postou uma foto sua de biquíni branco. Rodrigo escreveu: “Linda”. Ela agradeceu, protocolar: “Obrigada pelo carinho”. Rodrigo, então, começou a postar mensagens repetidamente – de início adocicadas, elas foram ganhando contornos pornográficos. Ana e sua assessoria bloquearam seus posts. A cada bloqueio, Rodrigo criava outro perfil e mantinha sua perseguição virtual. Amigos da família acham que foi nesse momento que a paixão pela apresentadora virou ódio: Rodrigo teria se sentido rejeitado ao ver suas mensagens seguidamente bloqueadas pelo objeto de sua paixão.

A família diz que Rodrigo nunca teve transtornos psiquiátricos. Apaixonado pela mãe, era dócil e carinhoso. Dormia às 21 horas e às 6 começava a trabalhar. Fazia doces que a mãe vendia à vizinhança. Estudou até o meio do ensino médio. Há dois anos, concluiu o supletivo e passou a estudar em casa com a intenção de prestar vestibular para medicina – sonhava em ser dermatologista. Aos 30 anos, nunca tivera um emprego, não tinha namorada e o único lugar a que ia com frequência era a academia, onde gostava de fazer treinos de braço (20 quilos de cada lado). Quando fazia algum comentário com alguém, era sobre futebol (torcia para o Flamengo) ou mulheres.

Recentemente, porém, deu sinal de que planejava algo importante. Um mês antes de viajar para Belo Horizonte, começou a vender pertences pela internet: um notebook, uma cadeira com estofado de couro, um videogame PlayStation e uma TV com tela plana de 42 polegadas. Em casa, disse que pretendia morar em São Paulo e precisava de dinheiro para começar vida nova. Mas, para viajar para Belo Horizonte no sábado fatídico, disse à mãe que iria visitar um de seus quatro irmãos. Pediu a ela que cortasse seu cabelo. Andava mais vaidoso nos últimos tempos. Passou a consumir suplementos proteicos, submeteu-se a um processo de clareamento dos dentes e começou um tratamento contra acne.

A mãe de Rodrigo diz que só descobriu que o caçula era fã de Ana Hick­mann há três meses, quando ele apontou para a imagem da apresentadora na TV e disse: “Ela está usando o vestido amarelo que eu lhe pedi para colocar”. Não deu muita atenção ao episódio. “Há uns dez anos, ele era louco pela (cantora) Sandy”, conta a mãe. Ela diz que o filho não era alguém capaz de matar. “Aquele não era ele, era outra pessoa agindo.” Rodrigo morreu na solidão da sua loucura, um desconhecido dentro da própria família, imerso na ficção que ele mesmo criou. Ao final, do amor e da rejeição imaginária, restou só a trágica realidade.

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