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Padilha recebeu ‘aula’ de tortura durante filmagem de ‘Tropa de Elite 1’

Diretor conta que foi procurado por policiais que contestaram a cena do sufocamento por saco plástico e o ensinaram o procedimento 'correto'

Alguns políticos vestiram a carapuça das personagens corruptas da história. “O Marcelo Itagiba ligou para o Rodrigo Pimentel (ex-capitão do Bope e co-autor do filme) e pediu para eu ir aos jornais e dizer que Guaracy não era inspirado nele. Como eu não fui, ele mesmo foi a um colunista de um jornal se defender”, contou Wagner Moura

Muito já se falou sobre os bastidores das filmagens de Tropa de Elite, nas duas versões. O mais bem-sucedido empreendimento do cinema brasileiro, visto por mais de quatro milhões de espectadores desde sua estreia, em 8 de outubro, renderia um filme só sobre o que se passou por trás das câmeras. No quesito “a realidade supera a ficção”, no entanto, nada é mais impressionante do que a história que o diretor José Padilha contou nesta segunda-feira no Rio de Janeiro, em debate promovido pela revista Bravo!. “Quando a gente fez o primeiro filme dois policiais do Bope foram ao set e mandaram me chamar durante a cena em que o Nascimento torturava uma mulher com um saco plástico. Quando achei que eles iam reclamar, mandar eu parar com a cena e fazer eu perder um dia de filmagem, um dele chegou perto de mim e disse que eu estava todo errado que não era assim que se torturava e veio me aconselhar sobre o modo ‘certo'”, revelou Padilha.

As histórias de bastidores, a pirataria e o combate à violência no Rio de Janeiro foram os assuntos principais da conversa entre Padilha, o ator Wagner Moura e o jornalista João Gabriel de Lima, diretor de redação da Bravo! que aconteceu no início da noite desta segunda-feira, no centro cultural Casa do Saber, na Lagoa, zona Sul do Rio de Janeiro.

Na exposição inicial que fizeram, Padilha e Wagner tentaram falar da experiência cinematográfica – o diretor na discussão entre cinema comercial e cinema não-comercial, o que é um paradoxo em se tratando de um filme de tamanha bilheteria – e Wagner, sobre o amadurecimento do agora coronel Nascimento.

Porém, logo que os dois se propuseram a responder as perguntas da platéia de cerca de 80 pessoas, vieram à tona os temas milícia, Unidades de Polícia Pacificadora, e as políticas públicas de combate à violência no Brasil. E foram os bastidores da polícia e da política do Rio que garantiram os melhores momentos do debate:

CARAPUÇA – Alguns políticos vestiram a carapuça das personagens corruptas da história. “O Marcelo Itagiba ligou para o Rodrigo Pimentel (ex-capitão do Bope e co-autor do filme) e pediu para eu ir aos jornais e dizer que Guaracy não era inspirado nele. Como eu não fui, ele mesmo foi a um colunista de um jornal se defender”, contou Wagner Moura.

CARAPUÇA 1 – Wagner continuou a história dizendo que outro deputado federal chamado Fraga reclamou de ter um papel com o seu nome, sem saber que o seu homônimo na ficção era um político honesto. “Ele achava que o Fraga era o secretário de segurança corrupto, que na verdade era a personagem do Guaracy. O problema é que o Adriano Garib era a cara desse tal Fraga. Ele fez questão de botar a foto dele ao lado Garib e dizer que o Padilha procurou um ator parecido com ele”.

CORRUPÇÃO – O set de filmagem de Tropa de Elite foi visitado por um tenente corrupto que tentou achacar o diretor dizendo que a equipe não tinha autorização para filmar no local. “Eu fui educado com ele, mas ele me deu voz de prisão e quando um sargento do Bope veio resolver o mal entendido ele esculachou o cara achando que era um figurante. O major Batista, do Bope, que estava no set, veio correndo para abafar a confusão”, revelou Padilha.

REALIDADE – O ‘Caveirão’, carro blindado da Polícia Militar, era de verdade. O soldado que costuma dirigir a viatura na vida real foi o motorista nas cenas de ação e que bateu com o carro com o máximo de realismo possível.

COLABORAÇÃO – Wagner disse que recebeu a consultoria de muitos policiais durante as filmagens e que em Tropa 2 teve mais pessoas em quem se inspirar. “Foi uma colcha de retalhos. No início eu me inspirei no Rodrigo Pimentel, que além de escrever o filme viveu tudo isso que estamos falando. Mas depois cada uma daquelas pessoas que falavam comigo fizeram parte de minha composição”, contou o ator, agradecendo a alguns militares que se ofereceram para ir ao set em seus dias de folga, e o ensinaram a pegar corretamente nas armas.