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Oscar 2011: a briga será no andar de baixo

'A Rede Social' e 'A Origem', que não lideram as indicações, devem travar a disputa mais acirrada da noite.

Não se pode acusar a lista de indicados ao Oscar de 2011 de ter causado surpresa. Um apanhado dos vencedores e indicados de prêmios recentes, como o Globo de Ouro ou os concedidos pela crítica especializada, praticamente adiantaram a lista divulgada nesta terça-feira (25).

As “injustiças” são tão poucas que não enchem uma mão. Vide a única indicação de Atração Perigosa, que poderia figurar entre os concorrentes de Melhor Filme e Melhor Diretor (Ben Affleck), nas mãos de Jeremy Renner, como Melhor Ator Coadjuvante.

A liderança de O Discurso do Rei, de Tom Hooper, com doze indicações, seguido do faroeste Bravura Indômita, dos irmãos Joel e Ethan Coen, com dez, servem pouco para indicar favoritismo.

Exemplos de filmes que largaram na dianteira e saíram de mãos abanando pipocam na história do prêmio. Para ficarmos num exemplo recente, em 2010 o portentoso Avatar (James Cameron), que tinha nove indicações, saiu da cerimônia com três prêmios de categorias técnicas e viu Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow), um filme de baixo orçamento, arrastar seis estatuetas.

O histórico indica duas coisas. A primeira, que nem sempre quem pode levar mais, vai acabar fazendo-o. Por isso, a boa briga da noite deve ser travada no andar de baixo entre A Rede Social, de David Fincher, e A Origem, de Christopher Nolan, com oito indicações cada um, incluindo a de Melhor Filme.

O segundo indicativo, é de que efeitos especiais ou roteiro mirabolante não servem de fiadores para uma vitória avassaladora. O que deixa A Origem, cujo diretor sequer foi indicado na sua categoria, dois passos atrás de A Rede Social, o grande favorito da noite

Contando a historia da criação do Facebook, a rede social mais popular do mundo com 500 milhões de usuários, o filme de David Fincher está calcado em dois pilares do cinema. A saber, texto e atuação. Nessa curva, A Origem soçobra. A história de um nerd solitário e de poucos escrúpulos, no caso o CEO Mark Zuckerberg, renderia pouco se não estivesse nas mãos de um diretor talentoso e amparado no roteiro primoroso de Aaron Sorkin e na atuação do jovem Jesse Eisenberg, na pele do protagonista.

Juntos, os três deram vida a uma saga que revisita mitos clássicos como Mefisto, apresenta para as gerações passadas um misto de empreendedorismo e alargamento de conceitos éticos como privacidade, e representa com louvor uma geração que nasceu conectada e molda dia a dia novos parâmetros para as relações sociais. Em resumo, cinema sobre o nosso tempo, feito no nosso tempo.

É um trunfo e tanto contra as camadas fantasiosas de sonhos criadas por Nolan em A Origem, cujo defeito maior está em ter deixado o cinema a serviço da fantasia, e não o contrário, e ter sido claudicante na criação de um universo onírico, como pede o tema tratado. Antes disso, se transformando num thriller de correria com falsas questões profundas. Pecou por desmedida pretensão. O mérito, que deve ser reconhecido pelos votantes, está no roteiro original. E estará de bom tamanho.