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O terno é o mesmo

Mas agora quem veste a peça de roupa são Tessa Thompson e Chris Hemsworth, os novos agentes com que se pretende refazer e relançar a série 'Homens de Preto'

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Toda a vida de M (Tessa Thompson) foi definida por um momento extraordinário da sua infância: o encontro com uma criatura peludinha e fofinha (mas feroz) de outro mundo. Nem os pais dela acreditam que isso possa ser verdade, já que a memória deles foi apagada pelos agentes de terno e óculos escuros que rapidamente chegaram à casa da família com seus neuralizadores — os aparelhinhos que, com um clarão de luz, passam uma borracha em todas as lembranças que possam comprometer o trabalho da secretíssima agência encarregada de controlar as atividades alienígenas na Terra. M cresceu, assim, com dois desejos ardentes: unir-se à agência e ganhar um neuralizador todinho seu. Depois de décadas sendo tachada de maluca, ela realiza seus sonhos ao encontrar o escritório central chefiado pela Agente O (Emma Thompson, esculpindo a laser suas falas). Ou ao menos um de seus sonhos: neuralizadores não são entregues assim de bandeja a qualquer novato em período de teste. M, porém, é aplicadíssima. Em dois tempos cai nas graças de T Alto (Liam Neeson), diretor da sucursal londrina, e sai numa missão com o audacioso e irresponsável H (Chris Hemsworth), a estrela do time. A missão deveria ser simples mas, é claro, logo se revela um daqueles casos de vida ou morte do universo, graças à extrema agilidade e durabilidade dos ETs representados pelos gêmeos dançarinos/modelos/tipões franceses Larry e Laurent Bourgeois. E assim, com a química fácil entre Tessa Thompson e Chris Hemsworth — testada com resultados excelentes em Thor: Ragnarok, em que ela fazia uma valquíria bêbada que a contragosto ajudava o deus do trovão —, são dadas as bases para MIB: Homens de Preto — Internacional (MIB: International, Estados Unidos/Inglaterra, 2019; já em cartaz), que a um só tempo continua, refaz e relança a série tornada célebre pela parceria entre o ebuliente Will Smith e o sisudo Tommy Lee Jones.

A esse tipo de filme se dá o nome de reboot. Como no jargão dos computadores, o termo designa a reinicialização de um sistema operacional — ou, no caso, de um argumento. Juntamente com o remake puro e simples (ou refilmagem), a sequel (a continuação) e a prequel (o prólogo de uma história já mostrada), ele compõe hoje uma parcela substancial da pro­dução para grande público de Hollywood. Histórias de super-heróis, por exemplo, são “reinstaladas” o tempo todo em função de uma soma de fatores técnicos (os efeitos especiais envelhecem), comerciais (um novo elenco ou uma nova “pegada” são o que basta para o fã se obrigar a conferir o filme) e comportamentais: a disposição da plateia muito jovem para assistir ao que ela considera antiguidades diminui a olhos vistos. O Homem­-Aranha, por exemplo, está no seu terceiro reboot desde 2002. Em breve, também o universo dos Vingadores e o dos X-Men devem recomeçar ou ser retomados de algum ponto, com a substituição de pelo menos parte do elenco. Assim como no caso de MIB (ou de Star Wars, Jurassic World, Star Trek, Predador, Alien e tantos outros), o raciocínio é de fácil compreensão: são marcas que já vêm com tração — o êxito passado e a popularidade contínua — e proporcionam também aceleração, uma vez que podem ser desdobradas em novos enredos praticamente até o infinito.

Apesar das diferenças sutis entre as categorias, quando alguém usa o termo “refilmagem” são grandes as chances de que esteja já desdenhando ou emitindo um juízo negativo. Grosso modo, o remake tem péssima fama, pela grande quantidade de filmes de má qualidade, ou que subtraem e nada acrescentam aos originais em que se baseiam, e pela maneira como mexe com as memórias afetivas dos espectadores (assim como a Agente M, os produtores adorariam ter um neuralizador que pudessem acionar em momentos-chave). Em geral, também, a refilmagem é vista como sintoma inequívoco do declínio de criatividade de Hollywood.

Não deixa de estar certo. Mas, por outro lado, está bastante errado: a indústria de cinema pratica a reciclagem desde bem antes de a palavra sequer ser inventada — para ficar num caso célebre, Ben-Hur é apenas um dos vários sucessos do cinema mudo que depois ganharam versões faladas e superproduzidas. Com certa frequência, atingem-se resultados não apenas comparáveis ao da primeira tentativa como até superiores (veja o quadro na pág. ao lado). E não são poucos os exemplos de refeituras tão canônicas quanto os originais — como A Primeira Página, que Billy Wilder fez em 1974 refilmando Jejum de Amor, clássico de 1940 de Howard Hawks (por sua vez, remake de um outro A Primeira Página, de 1931, dirigido por Lewis Milestone, o primeiro a adaptar a peça homônima de Ben Hecht).

Ou seja: se recentemente se arruinaram Hellboy e Os Caça-Fantasmas e se piorou o que já não era grande coisa na refeitura de Desejo de Matar, por outro lado também se melhorou o que já era bom na quarta investida de Nasce uma Estrela. Mais importante, até, é o número de remakes perfeitamente decentes, como as recém-lançadas versões dos clássicos B do terror It e Cemitério Maldito, ou este MIB: Internacional. Ainda que ele não concorra com o primeiro na surpresa do conceito e na genialidade da parceria entre Tommy Lee Jones e Will Smith, pelo menos tem seu charme particular e diverte por mérito próprio. Se uma parte da plateia resiste a visitar um original em preto e branco, ou com efeitos rudimentares para o padrão atual, ou que lhe parece lento para o ritmo de hoje do cinema — e, sim, a plateia resiste a isso tudo —, então há coisas piores do que apresentar a ela uma concepção nova de um bom roteiro. Tudo se transforma, e alguma coisa se cria.

Publicado em VEJA de 19 de junho de 2019, edição nº 2639

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