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O Surdo Um tem companhia: o espetáculo da Mangueira com duas baterias

Dona da batida mais tradicional do samba carioca, verde-e-rosa leva a Sapucaí ao delírio 'trocando' as baterias em pleno desfile, numa apresentação histórica

Junto com a revelação da campeã do carnaval carioca, a Quarta-Feira de Cinzas sempre revela algumas surpresas e decepções. Injustiças, talvez. O Carnaval de 2013, no entanto, está fadado a ser lembrado por um acontecimento particular, circunscrito ao universo da Estação Primeira de Mangueira, mas com força suficiente para abalar o samba. Quem imaginaria que, um dia, num desfile, a bateria Surdo Um da verde-e-rosa levaria para a Marquês de Sapucaí não uma inovação, uma invenção, um instrumento ou ritmo exógeno, mas uma bateria inteira a reboque daquele grupo intocável de ritmistas?

Pois a ousadia foi feita. E posta à mesa dos jurados como algo de consequências imprevisíveis, mas não inteiramente inimagináveis, considerando o peso da batida grave dos surdos que não admitem ‘resposta’. Sim, até os sambistas dinamarqueses sabem que na Mangueira as marcações do surdo – surdo um – não são entremeadas com a nota ligeiramente mais alta do surdo de resposta. Em vez de TUM-tum-TUM-tum, a Mangueira faz só o TUM, maiúsculo e inconfundível. E nisso ninguém jamais vai mexer. É essa a característica que faz até os foliões bissextos entenderem que aquela trovoada que vem dobrando a esquina é “de” Mangueira, não de outra freguesia – com respeito a todas as agremiações, merecedoras ou não.

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Mas eis que em 2013 atrás da bateria havia outra, identificável pelo rosa quase rubro das fantasias. E, a certa altura, quando a sonoridade sugeria uma “paradinha”, uma pausa de um compasso, o que vinha era a tempestade perfeita do terreno ao lado, e a bateria principal se calava. Presidente da escola, Ivo Meirelles avisou que queria um efeito parecido ao de um gol. Em alguns momentos, o que se viu foi o Brasil ganhando a Copa em casa, com o Maracanã lotado. Dizem os entendidos que a façanha só foi possível porque a Mangueira inteira sabia o samba, e cantava, sem parar. A Mangueira já ouviu e já cantou sambas muito melhores, mas é fato que neste carnaval foi, junto com a Vila Isabel, exceção na arte de fazer cantar. Não importa: o espetáculo, sob pena de uma ou outra atravessada nos extremos do desfile, foi incomparável, inimaginável.

O Maracanã – nome, aliás, dos surdos responsáveis pela batida mais grave numa escola – também chorou, como em 50. Depois da apresentação apoteótica, da goleada das duas baterias, o carro com a borboleta no alto, preparado para passar por sobre os fotógrafos da torre do Sambódromo, ficou agarrado, agravando o estouro no tempo que leva a escola para a apuração já em débito de seis preciosos décimos. A Mangueira poderia correr, mas preferiu manter o espetáculo. Afinal, quem vai se lembrar da campeã e dos décimos, se 2013 foi o primeiro em que a Surdo Um teve companhia?