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O show não pode parar

O teatro musical que despontou no país há 18 anos constitui hoje uma indústria vigorosa — mas a nova lei de incentivo fiscal ameaça os espetáculos do gênero

O ano era 2001. Em São Paulo estreava, inaugurando o Teatro Abril (hoje Teatro Renault), o grande musical Les Misérables, um dos mais aclamados e premiados espetáculos do planeta — adaptado para o cinema em 2012, ganhou três Oscar e voltou a ser montado no Brasil em 2017. Na mesma época, o Rio de Janeiro via o pano subir para Company, musical do mais celebrado compositor do gênero de todos os tempos, Stephen Sondheim, que compareceu à estreia carioca, um marco na história do entretenimento por ser justamente a primeira montagem de uma obra completa do autor na América Latina.

Talvez apenas uma mera coincidência una esses dois eventos naquele mesmo ano. Ou talvez tenha sido mais do que isso. Les Misérables e Company iniciaram, sem que se soubesse disso naquele momento, uma nova era no teatro que se fazia até então no Brasil. Foi a partir dali que uma série de espetáculos de grande porte passou a empregar uma legião de artistas, técnicos, produtores, diretores, profissionais que antes nem sequer seriam considerados para exercer funções no padrão de arte e entretenimento estabelecido em nosso país. Desenvolvia-se uma nova indústria da cultura, que agora corre grave risco com as últimas regras decretadas pelo governo federal para a Lei de Incentivo à Cultura (ou Lei Rouanet, como era conhecida até que o decreto extinguisse também esse nome). Pelos atuais regulamentos, o teto para a captação de recursos da iniciativa privada por isenção fiscal é de 1 milhão de reais. Ocorre que a montagem de um espetáculo de teatro musical exige, no mínimo, 8 milhões de reais.

A cifra talvez pareça elevada, mas há diversos elementos do teatro musical que encarecem as produções — e que, ao mesmo tempo, empregam centenas de profissionais da indústria criativa em cada montagem. Um exemplo indiscutível é a inclusão de orquestras ao vivo nos espetáculos, algo até então impensável em nossas produções. Com as orquestras vieram os arranjadores, maestros, copistas, além de todo o aparato de sonorização e do envolvimento de um exército de técnicos que, antes disso, mal conheciam os chamados body-mics (microfones usados para a captação de voz colados à cabeça dos atores-cantores). O setor de som é apenas uma entre várias áreas em que se abriram oportunidades profissionais graças ao advento do teatro musical. Entre as profissões que quase não se faziam necessárias antes e passaram a ser parte fundamental de todos os espetáculos estão operadores de canhões de luz (de dois a quatro por espetáculo), peruqueiros/visagistas (podem chegar a uma dezena em um grande musical), diretores-residentes (assistem a todas as sessões e representam a direção dos espetáculos junto ao elenco e à produção), company manager (gerente da companhia, respon­sável por toda a apresentação, efeitos de cena, entrada de artistas no palco, operação dos técnicos) — para citar somente as funções de caráter mais técnico.

No âmbito artístico, desde aquela virada de século, foram dezoito anos de uma geração inteira de atores, cantores, bailarinos, coreógrafos, diretores, autores, compositores, arranjadores, um batalhão de criadores que passou a ter voz, a se fazer presente, a propor repertório e caminhos para as artes cênicas em geral. Onde estariam (estaríamos?) todos os já citados se por um viés diferente do destino o teatro musical não tivesse vingado no Brasil da maneira que vingou?

Mas o mais importante de tudo, o que comprova a pujança do gênero e sua perenidade, é que não fazemos teatro para nossos amigos, nossa família, nosso próprio furor artístico autorreferente ou ególatra. Fazemos para o público. Um público que aderiu em massa ao gênero. Um público que cresceu exponencialmente e hoje é fiel a seus novos ídolos no palco, excelentes nomes revelados, talentos descobertos. Um público que teve a chance de assistir ao vivo a grandes clássicos inequívocos aqui produzidos, como West Side Story, Um Violinista no Telhado, Ópera do Malandro, O Grande Circo Místico, Gabriela, Cravo e Canela, Chicago, Les Misérables, Peter Pan, Hair, e de se entusiasmar com criações novas e totalmente nacionais, como Sassaricando, Elis, Tim Maia, Gonzagão — A Lenda, Dois Filhos de Francisco, Vingança, Milton NascimentoNada Será Como Antes, Chacrinha e mais de uma centena de títulos. Sim, o público aderiu em massa, um público novo, que talvez antes nem estivesse atento ao teatro de texto, dramas e comédias, mas que, pela porta de entrada dos musicais, começou a frequentar todos os gêneros de teatro.

“Não fazemos teatro para nosso próprio furor artístico autorreferente ou ególatra. Fazemos para o público”

Junto disso, foram inauguradas casas de espetáculos para abrigar grandes produções — dezenas de novos palcos com estrutura técnica para acomodar a demanda, que só cresce. Eu mesmo, com enorme modéstia, tive a honra de inaugurar perto de uma dezena de espaços e, até em teatros mais antigos, tive a alegria de ver o fosso da orquestra finalmente ocupado por uma… orquestra! Em resumo, de 2001 até hoje, não é exagero dizer que o teatro musical provocou uma revolução na área de artes e entretenimento no Brasil. E — façam-se as contas — quantas centenas de milhares de empregos foram criadas em todo esse processo?

Nada disso seria possível sem as leis de incentivo à cultura. Estamos falando de produções que envolvem muitos profissionais, estrutura técnica e artística de grandes proporções, custo diário por apresentação que jamais seria viável com retorno de bilheteria. Mesmo trabalhando com casas lotadas, o que é bastante comum nesse tipo de espetáculo, jamais seria possível fechar a conta de um único mês de apresentações. O chamado boom dos musicais só foi possível por ter sido alicerçado em dois pilares fundamentais: o apoio das leis de incentivo e a adesão em massa do público, que justifica nossa resiliência e nossa tenacidade em manter a roda girando. Não fosse um segmento que tivesse tanto apelo para o público, não houvesse uma multidão de frequentadores diariamente em nossos teatros (cuja capacidade é, em geral, de 800 a 1 500 lugares), o gênero não resistiria por vinte anos seguidos, sem recuo, sem desistências. Ninguém baterá na mesma tecla por tanto tempo se não entender que está obtendo sucesso e movimentando vidas, sonhos, todo um mercado e suas ramificações.

O público brasileiro passou a conviver com algo a que só teria acesso antes se pudesse viajar para o exterior, frequentar os grandes centros culturais do globo, como Nova York, Londres, Montreal, Paris. Agora, sem prejuízo algum de qualidade (atestada pelos mais diversos especialistas do mundo todo), temos aqui, de maneira extremamente rigorosa e autêntica, a arte e a genialidade de ícones como Rodgers & Hammerstein, Leonard Bernstein, Andrew Lloyd Webber, Stephen Sondheim, Jerome Robbins, Bob Fosse e a celebração viva dos maiores nomes de nossa música e teatro, como Elis Regina, Milton Nascimento, Luiz Gonzaga, Lupicínio Rodrigues, Nelson Motta, Deborah Colker, Braguinha, Cartola e tantos outros.

Não, não podemos parar. Não temos como simplesmente fechar o pano de tudo isso, abandonar nosso público, desempregar os que conosco fazem o show acontecer todas as noites. Não somos usurpadores de verbas indevidas, muito menos auferimos mais do que o justo retorno com nosso ofício; se há pontos fora da linha, investigados sejam, e punam-se os infratores. Mas nós vamos ficar, precisamos e merecemos ficar. O que fazemos é por vocação e luta, o que construímos em apenas dezoito anos é mais que ilusão e festa — fazemos pão e circo, vivemos de ambos, somos muitos, somos centenas de milhares, não chegamos ontem nem podemos sumir amanhã. O Brasil é nosso parceiro, e este novo Brasil certamente há de nos manter juntos, perto, marchando em frente e com confiança.

O show tem de continuar!

* Claudio Botelho é ator, diretor e produtor de musicais

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2019, edição nº 2634

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