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O rito de passagem do cinema nacional

Com filmes consistentes que oferecem novos parâmetros de linguagem e métodos de produção, diretores jovens e estreantes abrem um flanco pouco explorado no cinema brasileiro: os de ritos de passagem da juventude

“As comédias e os filmes de violência urbana deixaram o universo íntimo do jovem à margem no cinema brasileiro”, avalia Nando Olival, diretor de Os 3

No universo de mais de 150 filmes nacionais lançados desde 2010, é possível divisar um filão bem distinto: o dos filmes sobre o rito de passagem da juventude à vida adulta. Além da Estrada, de Charly Braun, e Os 3, de Nando Olival, lançados este ano, são exemplos de produções que trilharam o caminho aberto em 2010 por Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho, Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo, e As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky.

“As comédias e os filmes de violência urbana deixaram o universo íntimo do jovem à margem no cinema brasileiro”, avalia Nando Olival, diretor de Os 3, que conta a história de três universitários às voltas com as mudanças comuns a quem está entrando na vida adulta e dizem respeito sobretudo à necessidade de assumir responsabilidades.

Nando Olival, diretor de 'Os 3' Nando Olival, diretor de ‘Os 3’

Nando Olival, diretor de ‘Os 3’ (/)

Para Olival, as angústias e incertezas típicas dos jovens oferecem à dramaturgia um terreno rico e pouco explorado. Pensamento semelhante ao de Esmir Filho, que estreou como diretor de longa-metragem com o delicado Os Famosos e os Duendes da Morte. “O leque de questões que podem ser retratadas ou discutidas tendo como base um jovem é amplo: incerteza, ansiedade, liberdade, tristeza profunda ou alegria imensa, tudo pode co-existir em um só personagem”, diz ele.

“No fundo, estamos tratando nos nossos filmes, embora com abordagem distintas, da maneira como as escolhas que fizemos quando jovens condicionarm nossa vida”, opina a gaúcha Ana Luiza Azevedo, mãe de três adolescentes, que findaram por inspirar a sua busca por um roteiro sobre essa fase da vida. Ana encontrou a base que precisava no livro homônimo de Marcelo Carneiro da Cunha. Experiência semelhante ao trabalho de Esmir e do escritor Ismael Caneppele, autor do livro no qual se baseia Os Famosos… Os dois compuseram filme e livro simultaneamente.

Assista à crítica de Os Famosos e os Duendes da Morte

Assista à crítica de Antes Que o Mundo Acabe

Assista à crítica de Os 3

Difícil realização — As assertivas parecem óbvias para os iniciados em filmografias como as de Gus Vans Sant (Paranoid Park e Elefante) ou Larry Clark (Kids e Ken Park), cronistas de primeira grandeza desses ritos que transformam crianças em adolescentes e jovens em adultos no cinema americano. No Brasil, de tão pouco explorado, o gênero despertou ceticismo entre as distribuidoras – e nem sempre foi fácil captar o dinheiro para os filmes.

Ana Luiza, por exemplo, demorou longos seis anos para realizar Antes Que o Mundo Acabe. Esmir, Nando e Charly esperaram menos, mas tiveram de por a mão no bolso para concretizar seus projetos. “Filmamos Os Famosos… com metade do dinheiro previsto e financiado por um fundo de cinema independente francês. Até que o filme estivesse pronto, não houve apoio de nenhum tipo”, diz Esmir.

Charly, que em Além da Estrada mescla road movie e romance de formação ao contar a historia de um uruguaio melancólico e desiludido que tem a vida mudada por uma estrangeira em visita ao país, usou parte de uma herança para financiar o filme. “Lançar mão de financiamento próprio me deu liberdade criativa e me ensinou a trabalhar com poucos recursos”, diz ele, que além de diretor fez as vezes de produtor e o que mais surgisse de necessidade técnica no set de filmagem.

As limitações financeiras prepararam os diretores para desafios futuros. Em 2012, Esmir dará início às filmagens de Baleia, também um filme sobre ritos de passagem, desta vez tendo o sexo como enfoque. “O filme se passa numa praia paulista, durante o réveillon”, revela, sem negar que o simbolismo da data reforça seu interesse pelo gênero. Charly, também estreante, começará a produzir um filme que se passa na Rússia, sobre duas atrizes de teatro. “Assim como em Além da Estrada, onde tratei de personagens à beira de mudanças profundas na vida, quero mostrar como ser estrangeiro serve a essas experiências”, diz ele, ainda sem fonte de financiamento, mas mais preocupado em afinar o seu ofício.

“É bobagem esperar de volta o dinheiro que investimos nos filmes. Mas isso importa pouco diante do resultado final”, disse Nando ao site de VEJA. Para ele, fugir do lugar comum recente no cinema nacional, realizando um filme consistente em roteiro e direção, é uma forma de lucro. Em resumo, qualidade é a moeda ambicionada por esses diretores jovens. Todos realizaram filmes tocantes e um tanto mais profundos que boa parte dos lançamentos recentes. Um indício de que o cinema brasileiro, quem sabe, está prestes a realizar seu rito de passagem, como se fosse um jovem ainda cheio de coisas para aprender na vida adulta.