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O Rappa quebra jejum e lança CD de inéditas após 5 anos

‘Nunca Tem Fim’, disponível a partir desta terça no iTunes, é chamado pela banda de 'clássico' e tem uma canção que lembra acidente da TAM de 2007

“Religião, cada um tem a sua. Mas fé, no meu ponto de vista, é acreditar em alguma coisa. Eu tenho muita. E essa canção (Anjos) vem no momento que a gente se abraça de novo e lembra como somos bons juntos.” (Marcelo Falcão)

“Todos os nossos discos precisam ter uma história. A desse, começa da pausa.” E lá se foram cinco anos sem um CD de inéditas, dos quais um e meio de um período que eles preferiram chamar de “férias”. Agora, O Rappa volta à cena musical com dez músicas novas no álbum Nunca Tem Fim – o oitavo dos vinte anos de carreira, que chega às lojas em CD e vinil no próximo dia 3, mas já está disponível a partir desta terça para streaming no iTunes, onde está aberta também a pré-venda. “É um clássico”, definem. Em cada faixa, eles mantêm as mensagens de superação e o som característico, marcado pelas baixas frequências, e que não pode ser definido somente como rock, reggae e sim uma mistura desses e de outros inúmeros estilos. O rap dá o tom a uma das canções, enquanto em outras um piano ganha papel de destaque.

O álbum foi antecipado na segunda-feira ao site de VEJA, que conversou com a banda na sequência, no Rio de Janeiro. O momento de “pausa”, como definiu Marcelo Falcão logo no início da entrevista, foi importante para uma reorganização que se mostrou urgente dentro do próprio grupo. “Vimos que tinha muita coisa errada: poderíamos estar mais estruturados com nossos advogados, tínhamos reivindicações a fazer para gravadora (Warner) antes de um novo contrato, e precisávamos urgentemente de uma mudança de empresário – o anterior nos ajudou muito, mas tinha uma mentalidade muito aquém do que precisávamos”, detalha o vocalista. “E voltar com a banda não poderia ser apenas voltar com a banda. Tinha que ser definitivo, e melhor”, acrescenta, enfatizando que o grupo sempre fez o que quis, e agora não seria diferente. Um exemplo: em determinado momento, a entrevista precisaria ser interrompida para a assinatura de alguns papéis. “Agora não. Primeiro o disco, o empresário espera”, responde Xandão, apoiado pelos demais.

Apenas eles escolhem suas prioridades. Por isso também recusaram a oferta da gravadora para chamar um produtor estrangeiro para o novo álbum e escolheram Tom Saboia, com quem já tinham trabalhado em 7 Vezes (2008). “O que não importa para os outros, importa pra gente”, diz Falcão, citando a letra de Um Dia Lindo, a música que fecha o novo CD, com batida hip hop: “Um dia lindo para uns não diz nada, mas pra outros tem tudo a dizer/ Um dia lindo pra uns não diz nada, e pra outros depende do que você vê”. E nada é mais essencial do que o som para eles. “Nunca fizemos música pensando em sucesso, e sim no que gostamos. É assim que cativamos o público”, acrescenta Xandão. Por isso, afirmam, sentem-se à vontade para tocar com qualquer outro grupo, seja de forró, metal ou axé. “Somos músicos, antes de qualquer coisa. Não nos fechamos em um único estilo”, complementa Falcão.

Faixas – Não há espaço para preconceito de nenhum tipo em O Rappa, reforçam, apressando-se em desvincular a canção Anjos de qualquer religião específica. A primeira faixa lançada do novo trabalho faz citações à Bíblia, chamada de ‘livro antigo’, mas destaca a mensagem de esperança. “Pra quem tem fé, a vida não tem fim”, diz um trecho. “Religião, cada um tem a sua. Mas fé, no meu ponto de vista, é acreditar em alguma coisa. Eu tenho muita. E essa canção vem no momento que a gente se abraça de novo e lembra como somos bons juntos”, explica Falcão. A música, que ele assina com Saboia, foi feita antes da morte de Chorão, do Charlie Brown Jr., mas é também dedicada a ele e sua família, conta o vocalista. “Ele nunca vai morrer para mim. O importante é o legado que ele deixou.” Neste domingo, ao ouvir que ela estava em primeiro lugar nas rádios, Falcão revela que se emocionou, mesmo depois de duas décadas de muito sucesso no país. “Estava ouvindo no carro, e ali mesmo, agradeci a Deus.”

Auto Reverse, música de trabalho atual, vem na mesma linha, e é para “o brasileiro que luta no dia a dia”. Com clipe gravado na favela do Vidigal, quer dizer que é possível acreditar mesmo diante de um obstáculo que parece intransponível. “Uma doce família/ Que tem a mania/ De achar alegria/ Motivo e razão/ Onde dizem que não”, é um dos versos. “A gente acredita mesmo na música que faz”, resume Falcão. E a letra, que forma um conjunto tão coerente, foi na verdade a junção de duas propostas diferentes, de Lula Queiroga e Vê Domingos. “Os dois nem se conheciam, mas mandaram coisas que se complementavam. Juntamos as duas, e você nem percebe direito onde termina um e começa o outro”, revela Marcelo Lobato. Essa é apenas mais uma prova da “experimentação” que a banda tanto defende. “Com toda a tecnologia disponível, mantemos o ruído, aquela ‘sujeira’, que parece mal feito, mas dá uma sonoridade incrível”, completa Lobato.

Nem só de mensagens de auto-ajuda é feito o novo álbum de O Rappa. Um tom mais crítico pode ser visto especialmente na faixa Cruz de Tecido, que lembra o acidente com um avião da TAM, que matou 199 pessoas em julho de 2007, em São Paulo. “Quem foi o responsável pela dor de tanta gente?”, questiona a canção, que condena todos os casos de impunidade no país e no mundo. “O que estamos relatando é um descaso jurídico, político e social. Consigo enxergar essa letra em várias situações na sociedade, não direcionada necessariamente àquele acidente. Coisas que acontecem no mundo inteiro, mas no Brasil principalmente”, ressalva Xandão. “O nosso questionamento aqui é o mesmo que fazemos desde o nosso primeiro trabalho: Cadê o órgão punidor? Só existe para o pobre mesmo?”, lembra Falcão.

Turnê – O que o nome do CD quer mostrar que é a música que Nunca Tem Fim, contam. O resultado desse processo que gostam de chamar “intuitivo” poderá ser visto a partir do próximo dia 20 de setembro, em São Paulo – onde tocam também no dia 21. Depois, a banda vai a Porto Alegre, no dia 28, e em seguida ao Rio de Janeiro, onde tocam em 4 e 5 de outubro. Só não espere ouvir alguma referência a “Vem pra Rua”, o jingle que Falcão cantou em um comercial de TV e virou hino das manifestações que tomam todo o país desde junho. “As pessoas identificaram a música como sendo d’O Rappa, mas não é. Não levantamos bandeira de partido nenhum. Acho que essa identificação aconteceu porque o público nos vê como uma banda que está sempre colocando o dedo na ferida. Mas tudo isso é espontâneo”, explica Falcão.