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O que o Big Brother diz sobre o Brasil

Num país moralista, mas sedento por erotismo, sexo na dose certa é caminho certo para conquistar audiência

“Os debates que acontecem fora da casa dizem mais sobre nossa sociedade do que sobre os participantes do reality show.” A declaração sobre o Big Brother África do Sul foi feita em 2001 pelo homem que levou o programa para lá, Carl Fischer. Mas poderia perfeitamente se aplicar ao Big Brother Brasil, a versão nacional do reality show criado em 1999 na Holanda e já exportado para 41 territórios. Se na África do Sul o show mostrou a existência de racismo nos anos pós-apartheid, por aqui ele revela como a sexualidade ainda é um tema delicado e pulsante. Mesmo sem o calor que obteve em outras terras, o sexo, sempre polêmico, obriga os confinados a cálculos extenuantes sobre o julgamento do público e é uma das armas da TV Globo para levantar a audiência.

Para o sexólogo Joaquim Motta, fundador do Grupo de Estudos sobre o Amor de Campinas (SP), há uma espécie de negociação entre interdição e desejo que opera dentro da sociedade brasileira. É esse o jogo que tanto Globo como confinados têm de dominar para cativar a plateia. “A nossa cultura ainda é muito moralista, influenciada pela tradição católica e, mais atualmente, pela expansão evangélica”, diz Motta. “A religiosidade interdita, mas também gera curiosidade em relação ao sexo. Então, há uma demanda por conteúdo erótico, mas ele deve ser comedido.” Em outras palavras, em vez de “novelão pornô”, termo usado pelo dramaturgo Aguinaldo Silva em seu Twitter, o BBB estaria mais para Cine Privê, um programa de longas eróticos.

A negociação entre o que deve ou não ser mostrado é constante. Os confinados não fazem nada sem pesar o que o público – juiz supremo dos paredões – vai achar. Maria, por exemplo, passou três dias pensando se deveria ficar com o recém-chegado Wesley, pois já tinha o eliminado Mauricio no currículo. E a emissora, se por um lado estimula sexualmente os brothers para incitar a formação de casais e de polêmicas que deem repercussão ao programa, por outro mantém um olho na censura. Censura tanto por parte do Ministério Público, já que o reality é classificado para 12 anos, quanto da audiência, que, quando foge, leva com ela os patrocinadores. “Já soube de famílias em que os pais proibiram os filhos de ver o Big Brother“, conta Motta.

Na última quarta-feira, quando levou ao ar a cena em que a carioca Diana, para comemorar a sobrevivência ao paredão, pulou na piscina apenas com a parte de baixo do biquíni, a emissora cobriu os seios da produtora com a ilustração de dois patinhos. Foi uma proteção aos valores da tradicional família brasileira que assiste à TV aberta. Quem acompanha o programa pelo formato pago do pay-per-view não viu patinhos. Também não viu quem buscou a cena na internet. Web e TV paga são outra dimensão do programa, mais livre e picante. Mas, mesmo nesse campo longe do olhar do Ministério Público e dos melindres da poltrona, a propalada sexualidade do Big Brother Brasil é light perto do que já se viu em outros continentes.

Outras terras, outro mar – As duas grandes novidades do Big Brother Brasil 11 até aqui, a presença de uma transexual no programa e o advento de um primeiro e discutido beijo gay, já foram superadas com vantagem por outros países. Diversos deles tiveram não apenas beijos, mas verdadeiros amassos gays em suas versões do reality show. E na Inglaterra uma transexual se sagrou campeã mantendo segredo dentro da casa sobre sua sexualidade, exatamente como fez Ariadna até sua eliminação, uma semana depois de começado o programa.

“Diversos países europeus têm uma postura sexual mais liberal que o Brasil”, diz o psicólogo Alexandre Bez, especializado em relacionamentos pela Universidade de Miami. “Uma revista dinamarquesa da década de 1980, por exemplo, é mais picante que muita revista brasileira atual. O brasileiro é mais pudico, sem dúvida.” Para Bez, essa forma de se relacionar com o sexo, mais latina e romântica, e também machista, faz o brasileiro apreciar especialmente a formação de casais heterossexuais dentro do reality show. A Globo sabe disso. Na última terça-feira, o apresentador Pedro Bial escancarou uma campanha pró-pegação na casa. Deu certo. Na noite seguinte, durante uma festa, a atriz Maria se rendeu ao médico Wesley.

A presença de álcool nas festas é um aditivo para a formação de casais. De acordo com Bez, a bebida inibe a auto-censura e deixa todo mundo mais liberado. Brothers soltinhos, o reality vai se aquecendo e produzindo histórias. Depois, basta à Globo limpar os excessos e colocar no ar, na sequência da novela das nove, a versão família do programa. Se bem que, para olhos estrangeiros, mesmo o que se vê na TV paga pode ser bastante light.

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