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O meio do caminho

Com Viggo Mortensen à frente e Mahershala Ali no apoio, Green Book trata com gentileza as questões raciais, buscando mais remendar divisões que provocar

Por Isabela Boscov - 25 jan 2019, 07h00

Tony Vallelonga (Viggo Mortensen) gosta do apelido pelo qual é conhecido, Tony “Boca”: ganhou-o porque é bom de lábia e convence qualquer um de qualquer coisa (para persuasões mais urgentes, entretanto, ele usa os punhos). Mas poderia merecê-lo também porque Tony, um ítalo­-americano de Nova York, come tanto quanto fala — 26 cachorros-quentes numa aposta, uma pizza inteira antes de dormir ou, com o intuito de iniciar seu patrão nas delícias da cozinha negra americana, um balde de frango frito. O patrão, no caso, é negro: Don Shirley (Mahershala Ali), virtuose do piano que precisa de um motorista e leão de chácara para protegê-lo durante uma turnê pelo Sul segregado. Refinado ao ponto do pedantismo, Shirley é, ao contrário de Tony, um sujeito de classe. Mas, nesse início dos anos 60, isso nada significa. Se Tony — que prefere jogar no lixo a lavar os copos em que sua mulher serviu água a dois negros — topa o trabalho, é porque também ele é uma pessoa em situação vulnerável; está temporariamente desempregado, e basta um passo em falso para se ver comprometido com os mafiosos do Bronx. Sem um ponto de contato evidente e desconfiados um do outro, Tony e Shirley não demoram a perceber que, por improvável que pareça, estão no caminho de uma grande amizade.

Green Book — O Guia (Green Book, Estados Unidos, 2018), já em cartaz no país, baseia-se em uma história verídica e vem com cinco indicações fortes ao Oscar. Tem a esperteza de inverter o sinal de um filme célebre de trajeto semelhante, Conduzindo Miss Daisy, de 1989, e conta com um trunfo de valor incalculável: a atuação fabulosa de Viggo Mortensen, que deflete a ingenuidade do diretor Peter Farrelly (da comédia Quem Vai Ficar com Mary?) em certos momentos cruciais e extirpa de Tony qualquer vestígio de condescendência. Também Mahershala Ali, com material bem menos sutil que o de seu personagem em True Detective (leia a resenha), contribui de forma decisiva: Tony de início acha cômica a altivez exagerada de Shirley, mas aos poucos entende que se trata da tática com que o pianista tenta neutralizar o menosprezo dos brancos e distinguir-se dos demais negros — uma tática não muito eficaz e que o acuou numa dupla solidão. Eis, então, o que Tony e Shirley descobrem um no outro: o desconforto que há tanto em encaixar-se nos estereótipos quanto em destoar deles.

É possível questionar se, em um ano em que disputam o Oscar também Infiltrado na Klan e Pantera Negra, faz sentido a presença na disputa de Green Book, com sua maneira branda de abordar as questões raciais (e com o barulho causado por antigos tuítes anti-­islâmicos do corroteirista Nick Vallelonga, filho do Tony real que inspirou o do filme — mas ele pediu desculpas públicas ao muçulmano Mahershala Ali). Em grande medida, a resposta depende daquilo que cada espectador acredita ser mais necessário a um momento de profunda divisão — se a provocação, a exortação ou a conciliação. Octavia Spencer, que produz Green Book e é uma das raras mulheres negras a exercer essa função, põe aqui suas fichas na estratégia em que há muito vem apostando também no seu trabalho como atriz em filmes como Histórias Cruzadas, Estrelas Além do Tempo e A Forma da Água — a de remendar ou construir pontes.

Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2019, edição nº 2619

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