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O kung fu autoral do cineasta Wong Kar-Wai

‘O Grande Mestre’ justifica o termo “arte” usado pelos chineses para se referir ao kung fu. Com sequências dotadas de uma plasticidade ímpar, diretor conta a história do mestre de Bruce Lee

Por Diego Braga Norte - 31 out 2013, 08h01

Há dez anos o cineasta Wong Kar-Wai iniciou o projeto de seu filme O Grande Mestre, lançado neste ano na abertura do Festival de Berlim – evento que o diretor, nascido em Hong Kong, presidiu. Com a intenção de fazer um filme em homenagem ao kung fu, as pesquisas iniciais concentraram-se na história do ator Bruce Lee. Conforme seu trabalho avançava, porém, outro personagem despontava: Ip Man, o professor de Bruce Lee. Kar Wai trocou de protagonista e optou por filmar a história do mestre incógnito no lugar da saga do pupilo famoso. A escolha não poderia ter dado mais certo.

Diretor detalhista e obsessivo, Kar-Wai já havia encantado o mundo com a plasticidade de seu cinema em obras como Amor à Flor da Pele (2000), 2046 (2004) e, mais recentemente, Beijo Roubado (2007) – este último é sua primeira produção em Hollywood e conta com os astros Jude Law, Natalie Portman, Rachel Weisz e uma ótima participação da cantora Norah Jones no papel principal. Se o diretor já havia se destacado por saber filmar mulheres bonitas de modo que elas ficassem irresistíveis, em seu último trabalho ele mostrou que também sabe registrar lutas marciais com uma beleza arrepiante, quase como um balé.

A história do filme é simples, mas a maneira como é contada, não. Estamos no final dos anos 30, no sul da China, Ip Man, interpretado por Tony Leung , é um mestre respeitado que ascende na hierarquia dos clãs de kung fu após derrotar o experiente mestre Gong Yutian, do norte do país. A filha de Yutian, chamada Gong Er, interpretada pela atriz Zhang Ziyi, desafia Ip Man para uma luta. A disputa termina empatada, mas ambos sentem uma atração mútua. Depois da eclosão da II Guerra Mundial, Ip Man fica impossibilitado de ir ao norte visitar Gong Er. Em meio à paixão subitamente interrompida, Ma San, promissor pupilo de Gong Yutian alia-se aos invasores japoneses e trai seu mestre. No norte da China, Gong Er luta para vingar seu pai, no sul, Ip Man luta pela vida. Ambos, no entanto, veriam seus caminhos cruzados em outras oportunidades.

Zhang Ziyi tirou de letra as gravações das cenas de luta, já que ela é veterana em filmes de artes marciais, protagonizando títulos como O Tigre e o Dragão (2000), Herói (2002), O Clã das Adagas Voadoras (2004), entre outros. Tony Leung – ator fetiche do diretor e parceiro de Kar-Wai em sete títulos – não teve tanta sorte assim. O perfeccionismo do diretor chegou ao ponto de levar extensos 45 dias para filmar apenas quatro minutos do filme – uma luta sob uma chuva torrencial. Leung pegou pneumonia de tanto filmar molhado no frio do inverno de Hong Kong. Se não bastasse a doença, o ator também fraturou o braço duas vezes durante a gravação – ele, apenas um amador que treinou kung fu por dois anos, contracenou com mestres de verdade.

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O resultado de tanta entrega é impressionante. As cenas que envolvem o kung fu têm um ritmo próprio, repletas de detalhes, com idas e vindas na velocidade das ações (o diretor alterna passagens em câmera lenta com trechos em velocidade real) e uma fotografia delicada. Se em suas obras anteriores Kar Wai já havia se mostrado um diretor de estúdio, que filma com muita competência em ambientes reduzidos: escadarias estreitas, corredores, quartos minúsculos e bares apertados; em O Grande Mestre ele segue a sua fórmula e põe os atores para lutar em espaços ínfimos. Com isso, a coreografia das lutas e a sincronização entre os atores têm de ser impecáveis. E assim o são. Com muitas qualidades, o filme é uma homenagem ao kung fu, que não à toa é chamado de arte. E essa arte milenar chinesa leva a assinatura de outro artista. Kar-Wai fez provavelmente o mais belo e autoral filme de artes marciais da história do cinema.

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