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O inimigo da terra plana

Nos 500 anos da circum-navegação de Fernão de Magalhães, romance narra a façanha que provou que o planeta era redondo (só alguns malucos não acreditam)

Por Marcelo Marthe - Atualizado em 12 Aug 2019, 11h15 - Publicado em 9 Aug 2019, 07h00

Ao cooptar homens para sua célebre empreitada marítima, o navegador Fernão de Magalhães enfrentou toda sorte de obstáculos. Seu plano de encontrar uma nova (e ousada) rota rumo ao Oriente, contornando o mapa pelo sul do então recém-descoberto continente americano, contava com o patrocínio entusiasmado do rei da Espanha. Magalhães, porém, era visto com desconfiança por ser de Portugal — e os dois países vizinhos eram rivais encarniçados na conquista dos mares. No cais, enquanto monitorava os remendos nas velhas caravelas que lhe confiaram para a viagem, ele era hostilizado pelo povão por seus laços com o inimigo. Dentro da corte, mexeram-se os pauzinhos para que várias das cinco embarcações da esquadra tivessem nobres espanhóis como comandantes — e, naturalmente, atuassem como espiões a bordo. Para além das intrigas geopolíticas, era preciso lutar contra antigas concepções sobre o mundo. Muitos não quiseram embarcar por temer que a expedição se perdesse em geleiras. Havia, por fim, a turma que insistia em achar que a Terra era plana — para esses, os navios que ousassem dirigir-se às suas bordas “iriam se precipitar num vazio sidéreo”.

FERNÃO DE MAGALHÃES, de Gianluca Barbera (tradução de Reginaldo Francisco; Vestígio; 256 páginas; 49,80 reais) VESTIGIO/Divulgação

Aqueles que acreditavam no terraplanismo compunham, então, uma minoria em franca extinção: como narra o escritor italiano Gianluca Barbera em Fernão de Magalhães, o próprio rei da Espanha já decidia sobre os assuntos de seu crescente império ultramarino de olho em um globo terrestre sobre sua mesa. O romance histórico reconta os perrengues épicos da primeira viagem de circum-navegação da Terra, aventura idealizada por Magalhães que se converteria na prova indisputável do formato esférico do mundo. O livro vem em boa hora não só por se festejarem neste mês os 500 anos da façanha. Sua leitura leva a indagar: o que Magalhães pensaria do “terraplanismo moderno”? Para esses napoleões de hospício das redes sociais (alguns deles até bem próximos a certos núcleos de poder no Brasil), a circum-navegação teria sido uma fake news náutica?

A primeira viagem em torno do globo foi fruto de um esforço de superação monumental que custaria muitas vidas — inclusive a de Magalhães. Ao zarpar do porto espanhol de Sanlúcar de Barrameda, em 10 de agosto de 1519, a expedição era composta de cinco caravelas que carregavam 265 homens. No seu retorno, em 6 de setembro de 1522, restavam apenas a nau Victoria e dezoito gatos-pingados. Quase tudo que se sabe sobre a viagem vem das anotações de Antonio Pigafetta, nobre italiano que pagou do próprio bolso para integrar-se à tripulação. Pigafetta é uma figura de realce no livro. Mas Barbera prefere narrar sua versão romanceada pelo ponto de vista de outro personagem real — e bem mais dúbio. O espanhol Juan Sebas­tián Elcano se alistou entre os homens de Magalhães para fugir de pendências com a Justiça, tomou parte em um motim contra o comandante (que mandou matar os principais rebeldes, mas o poupou) e completaria a circum-navegação no lugar do português — que foi morto em confronto com aborígines nas atuais ilhas Filipinas.

O navegador Fernão de Magalhães: terá sido tudo em vão? DeAgostini/Getty Images

Na sua reconstituição, Barbera incorre em pecados típicos desse gênero de romance: abusa dos chavões e da pieguice ao louvar as glórias de Magalhães ou ao pintá-lo como herói tão obstinado quanto irascível. O relato de Elcano vai ganhando musculatura e interesse, contudo, à medida que se aprofundam as provações dos viajantes. Eles teriam topado com índios canibais na atual Baía de Guanabara e sobreviveram ao frio polar na até então virgem Terra do Fogo. Nos 120 dias de travessia do Oceano Pacífico, muitos sucumbiram à fome e às doenças. Diante da escassez total, os que restaram se viraram como piratas na costa asiática. Depois disso tudo, ainda tem gente que acredita no terraplanismo.

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Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2019, edição nº 2647

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