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O espectador no espelho

Com um único protagonista em um só ambiente, o dinamarquês Culpa não apenas prende a atenção da plateia como a leva a examinar como faz seus julgamentos

Relegado ao centro de atendimento de emergência em razão de um incidente de trabalho pelo qual será julgado no dia seguinte, o policial Asger Holm responde com enfado aos telefonemas — um sujeito consumiu drogas demais e agora está apavorado com suas palpitações; outro diz ter sido assaltado por uma mulher que pulou para dentro de seu carro mas, como mostra a tela de Holm, fala da zona de prostituição de Copenhague. Uma nova ligação a princípio lhe parece trote, porém logo se revela urgente e possivelmente terrível: balbuciando na linha, como se estivesse falando com a filha pequena, uma mulher dá a entender que foi raptada. Mais: conhece seu raptor, está sendo levada para um lugar remoto e teme pela menina e pelo bebê que deixou a sós em casa.

Estreia na direção de Gustav Möller, Culpa (Den Skyldige, Dinamarca, 2018), já em cartaz no país, não se afasta em nenhum momento do rosto severo e expressivo do ator Jakob Cedergren, e passa-se todo numa área de uns poucos metros quadrados, indo tão somente da mesa do policial para uma sala mais reservada na qual ele se isola para conduzir o caso. Quando algum dos seus colegas entra em quadro, é em segundo plano ou sem foco. Toda a ação consiste em Holm falando ao telefone com outros centros de emergência, com os policiais de uma viatura, com seu chefe, com seu parceiro, com a raptada e, a certa altura, também com o raptor — e, nos momentos em que o diretor demonstra a extensão da sua habilidade, com Mathilde, de 6 anos, a menina que está sozinha em casa e pinta para Holm uma cena perturbadora: uma briga horrível entre os pais, uma faca, a mãe sendo puxada pelos cabelos para a van na qual é mantida prisioneira.

Acelerado pela preocupação, pelo tempo que corre e por arrependimentos que aos poucos se tornam mais nítidos, Holm — assim como o espectador — vai preenchendo as lacunas com sua imaginação e tomando a dianteira dos eventos com consequências que não pode prever, porque, é claro, não está de posse da totalidade dos fatos. Culpa é um estudo sobre decisões precipitadas e informadas por desvios pessoais — um tema por si só especialmente oportuno. E é também um exemplar instigante de um subgênero que reduz ao mínimo absoluto os elementos de cena — um ator, um ambiente.

Tanto para o diretor como para o ator, trata-se de um teste implacável. Talvez por isso mesmo costume render resultados tão excepcionais (confira no quadro abaixo): tal é a exigência desse tipo de minimalismo que, em geral, só se arrisca nele quem pode confiar na qualidade do material, no seu preparo para controlar o ritmo e — essencial — no carisma do intérprete e na sua capacidade de modular o desempenho. Às vezes, esse gênero de roteiro resulta em uma produção comercial como Náufrago (2000), de Robert Zemeckis, em que Tom Hanks passa sozinho em cena quase oitenta dos 143 minutos de projeção, ou Perdido em Mar­te (2015), de Ridley Scott, cujo mo­te é a sobrevivência solitária de Matt Damon no planeta vermelho. O habitual, entretanto, é que o orçamento seja tão enxuto quanto a encenação. Só a ambição não é pequena: pode consistir, por exemplo, em investigar os limites da resistência humana, como em tantos desses filmes, ou em imaginar a luta contra a morte — como a de um marinheiro solitário contra a embarcação que já não é capaz de transportá-lo, mostrada em Até o Fim. Ou, como em Culpa, pode ser a de obrigar o espectador a se ir colocando no lugar do personagem até que ele se torne um espelho de cada um dos julgamentos, crenças e sentimentos que condicionam a maneira instintiva como nos movemos dentro de nossos próprios dramas.


UM ATOR, MUITO DRAMA

Filmes que exibem um único personagem em cena — e extraem dele o máximo de tensão

 (./Divulgação)

ENCURRALADO (1971)
Na espetacular estreia de Steven Spielberg, Dennis Weaver é o motorista perseguido por um caminhoneiro de quem nunca se vê o rosto


 (./Divulgação)

ENTERRADO VIVO (2010)
Munido apenas de um celular e um isqueiro, Ryan Reynolds acorda dentro de um caixão enterrado em algum lugar do Iraque


 (./Divulgação)

LUNAR (2009)
Na reta final de uma missão solitária de três anos em uma estação lunar, o astronauta de Sam Rockwell percebe que está começando a alucinar


 (./Divulgação)

LOCKE (2013)
Dirigindo noite adentro, Tom Hardy vê sua vida desmoronar em sucessivas conversas pelo viva-voz do carro


 (./Divulgação)

ATÉ O FIM (2013)
Perdido no mar em um veleiro avariado, Robert Redford luta contra os elementos e contra a perspectiva da própria morte


 (./Divulgação)

ÁGUAS RASAS (2016)
Blake Lively é uma surfista que, sozinha em uma praia deserta e muito ferida, é impedida de retornar à areia por um tubarão com sede de sangue


 

 

Publicado em VEJA de 2 de janeiro de 2019, edição nº 2615