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O diretor fora da caixa

Para Antunes Filho, o teatro era um formador de opinião e de consciência

Nas coxias do teatro brasileiro, a fama de Antunes Filho o precedia. Genial, difícil, controverso. São diversos os adjetivos atribuídos ao diretor e encenador paulistano. E todos eles convergem para seu vasto legado. Antunes foi cria do Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, companhia paulistana que importou peças e diretores estrangeiros. A experiência ali o levou ao movimento de renovação teatral brasileiro que, entre os anos 1960 e 1970, deu nova cara estética às produções, as quais passaram a beber mais de tramas nacionais e a buscar certo tom político. Para ele, o teatro era um formador de opinião e de consciência. O principal fruto dessa linha viria em 1978, com Macunaíma — a adaptação da mais inventiva obra modernista de Mário de Andrade tornou-se um marco da encenação brasileira, comparável a Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, montada por Ziembinski em 1943. A peça rodou o Brasil e o exterior, somando quase 900 apresentações em uma década de estrada.

O diretor se dizia travesso, um “espírito de porco”, características que o faziam sentir-se atraído por tipos “fora da caixa”, como o próprio Macunaíma, ou Policarpo Quaresma e Bacamarte, personagens não muito certos de Lima Barreto e Machado de Assis. Também levou aos palcos obras de Guimarães Rosa e Ariano Suassuna, sem negligenciar os maiores nomes do teatro mundial, de William Shakes­peare a Samuel Beckett. O favorito, contudo, era Nelson Rodrigues. Antunes começou montando A Falecida, seguida por Bonitinha, Mas Ordinária, e arrebatou o público nos anos 1980 com Nelson Rodrigues — O Eterno Retorno, obra que unia trechos de quatro peças do autor.

Se o contemporâneo José Celso Martinez Corrêa é conhecido pelas trupes anárquicas, Antunes era o diretor da disciplina, dos métodos quase espartanos. Grande incentivador de jovens atores, em seu trabalho no Centro de Pesquisa Teatral (CPT) formou nomes como Matheus Nachtergaele, Giulia Gam, Marcelo Medici, entre outros que levaram adiante os ensinamentos do mestre febril. Antunes Filho morreu na quinta-feira 2, aos 89 anos, em São Paulo, de complicações de um câncer de pulmão.

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2019, edição nº 2634

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