O detetive trágico

Ganha nova e bela tradução a peça do grego Sófocles sobre Édipo, o rei (ou tirano) que, sem saber o que fazia, mata o pai e se casa com a própria mãe

Por José Francisco Botelho - 26 out 2018, 07h00
ÉDIPO TIRANO – de Sófocles (tradução de Leonardo Antunes; Todavia; 176 páginas; 49,90 reais ou 19,90 reais em versão digital)

ÉDIPO TIRANO – de Sófocles (tradução de Leonardo Antunes; Todavia; 176 páginas; 49,90 reais ou 19,90 reais em versão digital) //Divulgação

Existem obras que jamais terminam de dizer o que nelas há para ser dito: em diferentes épocas e lugares, assumem significados às vezes contraditórios e não deixam de engendrar revisões e releituras. Exemplo primordial de texto que jamais se esgota é a tragédia geralmente conhecida como Édipo Rei, composta por Sófocles e encenada pela primeira vez em Atenas, entre 429 a.C. e 425 a.C. De lá para cá, frequentou os palcos do Ocidente, inspirou outras ficções, serviu de mote à psicanálise freudiana e foi amplamente traduzida em diversas línguas, inclusive o português. Seus temas são imortais: a natureza do poder, a tensão entre o livre-arbítrio e as circunstâncias, e a incapacidade da alma humana de compreender plenamente a si própria. Mesmo após tantas aparições em tantos formatos, a obra-prima de Sófocles mantém seu enigma essencial — e sempre termina ressurgindo com a perturbadora urgência dos pesadelos e das profecias. É o que acaba de ocorrer entre nós. Num tempo cheio de presságios confusos, a tragédia das tragédias renasceu em português brasileiro, com formidável dicção poética e um título renovado: Édipo Tirano, excelente tradução assinada pelo poeta e helenista Leonardo Antunes.

A peça de Sófocles é o primeiro grande drama detetivesco na literatura ocidental: sua trama, maravilhosamente convoluta, acompanha a investigação de um assassinato, cuja elucidação acarretará uma catástrofe exemplar. No início da tragédia, encontramos Édipo governando Tebas, no ápice da glória terrena, considerado pelos súditos como “o melhor dos mortais”. Em uma série de flash­backs, somos informados sobre a vida pregressa do herói: seu grande feito foi derrotar a Esfinge, prolixo monstro que assolava a cidade com suas charadas mortíferas e apetites sanguinários. A façanha de Édipo não foi física, mas intelectual: decifrando o célebre enigma da Esfinge, cancelou seu poder de vida e morte sobre os tebanos. Em seguida, subiu ao trono vago e casou-se com Jocasta, viúva do antigo rei, que desaparecera em circunstâncias obscuras.

Esse detalhe, por sinal, explica a opção do tradutor por chamar Édipo de “tirano”, abandonando a tradução mais costumeira, “rei”. Tirano, entre os gregos, era o governante que tomava o poder por meio da força ou da astúcia — pouco importando o caráter terrível ou benevolente de seu governo. O título de rei — em grego, basileos — era conferido apenas a quem herdasse o mando pelo berço. Nesse ponto, a sutileza da nova tradução sublinha um aspecto crucial da peça: Édipo não governa por direito, mas pela ação do acaso ou pela trama do destino. Em breve, será deposto pelas mesmas forças que o fizeram ascender: seu governo é subitamente perturbado por uma peste misteriosa, sinal da ira divina, que dizima as ruas de Tebas. Vale lembrar que, por volta de 429 a.C., uma epidemia varrera Atenas, contando-se entre suas vítimas o famoso político Péricles. Sinistra e verossímil deve ter soado aos atenienses a descrição da praga, aqui belamente vertida por Antunes: Tebas “fenece junto à flor dos frutos pelo chão; / fenece junto ao gado novo do rebanho / e aos filhos natimortos. Foi o deus do fogo / que a trouxe, peste horribilíssima, à cidade”.

Por meio de um oráculo, o deus Apolo aponta a razão do castigo: há em Tebas uma mácula que deve ser purificada. O assassino de Laio, antigo rei, vive ainda entre os tebanos. É preciso encontrá-lo e puni-lo. O próprio Édipo se encarrega da investigação, esperando salvar a cidade pela segunda vez e, assim, confirmar sua posição no trono. Mas Tirésias, o adivinho cego, adverte que o almejado conhecimento haverá de arruiná-lo: “Como é terrível o entender sem benefício de quem entende!”. Teimoso como todo herói trágico, Édipo chega a uma descoberta triplamente horrível. Ele próprio é o assassino de Laio: matou-o sem saber, anos atrás, em uma briga à beira da estrada. Pior ainda: Édipo é na verdade filho de sua vítima. Uma profecia anunciara que o herdeiro de Laio haveria de matá-lo; o príncipe fora abandonado ao nascer e criado por pais adotivos. O acaso — ou o destino — o trouxera de volta a Tebas, onde incorrera, por ignorância, nos dois piores tabus da cultura ocidental: o parricídio e o incesto. Após matar o pai, usurpara o trono que devia ter herdado e se casara com a mulher que o havia gerado.

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Sigmund Freud, famosamente, interpretou o mito de Édipo como a tragédia do inconsciente humano: o desejo secreto de matar o pai e possuir a mãe. “Cada pessoa na plateia foi, um dia, Édipo”, escreveu o psicanalista austríaco ao definir o complexo homônimo. A interpretação freudiana dribla um aspecto crucial da peça. Afirmar que Édipo cometeu seus crimes atrozes por vontade própria é anular a ação do acaso, do absurdo e da fatalidade. Uma das qualidades atemporais da tragédia de Sófocles é, precisamente, o retrato do herói como um joguete de forças além de si mesmo, cujo significado não consegue decifrar. Nesse sentido, a tragédia de Édipo é a vingança da Esfinge: mesmo derrotando o monstro, o tirano de Tebas não pôde decifrar o maior de todos os enigmas, que é o destino humano. Por outro lado, sua determinação de conhecer a verdade, mesmo que ela o destrua, faz do malfadado tirano uma encarnação do intelectual trágico, como o Ham­let de Shakespeare.

Além de optar por um título mais próximo às ambiguidades do original, a tradução de Leonardo Antunes evoca, com impressionante vigor criativo, os ritmos e melodias que integravam o espetáculo teatral na Grécia clássica. Nos tempos de Sófocles, as tragédias eram encenadas com cantos e danças, ao som de liras, castanholas e outros instrumentos. Composta com um olho na página e o outro no palco, a tradução de Antunes recorre ao verso vernáculo para sugerir a música e a prosódia do grego antigo. Adaptando o português brasileiro à cadência de um mundo desaparecido, mas sem cair num hermetismo estéril, Édipo Tirano combina estranheza e familiaridade na medida certa para reverberar, no conturbado pre­sente, um texto que ecoa e se trans­forma há 24 séculos.

 

Publicado em VEJA de 31 de outubro de 2018, edição nº 2606

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