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‘O Destino de Júpiter’: uma bomba dos diretores de ‘Matrix’

Irmãos Wachowski fazem uma ficção científica canhestra que parece um crossover de Gata Borralheira com 'Crepúsculo'

Existe uma série de fatos em O Destino de Júpiter que pode fazer o público rir, e isso seria muito positivo caso se tratasse de um filme de comédia. Mas o novo longa dos irmãos Andy e Lana Wachowski, os diretores da franquia Matrix, é uma ficção científica das mais canhestras. Com efeitos especiais interessantes, mas não surpreendentes, e uma série de clichês, o longa conta uma história absurda apoiado em personagens de pouca profundidade e em diálogos ridículos (leia mais abaixo).

A trama parece um crossover de Gata Borralheira com Crepúsculo, além de copiar descaradamente a premissa de Matrix, uma adaptação de uma consagrada HQ. Júpiter (Mila Kunis), assim como Neo (Keanu Reeves), protagonista do clássico, não sabe que é ‘a escolhida’ para salvar o planeta Terra até ser descoberta e passar por momentos de revelação. A jovem mora com a mãe em Chicago, trabalhando como faxineira até que, influenciada por um primo, resolve vender seus óvulos em uma clínica de credibilidade suspeita para arrecadar dinheiro e comprar um telescópio, objeto que a faz lembrar do pai, um astrofísico morto logo nos primeiro minutos do longa.

A operação se torna uma emboscada, quando, de repente, os médicos da clínica se transformam em alienígenas do mal. Cain (Channing Tatum), personagem humano com traços de lobo e força inacreditável, invade a sala e sequestra a jovem. Ele fazia parte da legião de combate às forças do mal, mas acaba sendo expulso por ter comportamento inapropriado. Desde então, ele é um “cão sem matilha” e destemido.

Júpiter é levada para uma fazenda, onde descobre que as abelhas não são capazes de picá-la. Impossível não se lembrar das montagens da Disney com princesas que manipulam animais quando, durante a cena, Júpiter brinca de erguer os braços com suavidade e os pequenos voadores acompanham o movimento. Isso se deve ao fato de que “as abelhas reconhecem a realeza”, explicação dada por Stinger (Sean Bean), ex-legionário e parceiro de Cain.

A garota, então, toma conhecimento de que é dona do Universo, porque é tão ET quanto os outros, mas antes mesmo que mais explicações sejam dadas, ela é novamente capturada por aliens que comandam uma nave espacial e levada para algum lugar da galáxia. Nesse ponto, o cenário e o núcleo de personagens do filme se deslocam totalmente para o espaço sideral.

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Os três irmãos sobreviventes da dinastia Abrasax, Balem (Eddie Redmayne), Kalique (Tuppence Middleton) e Titus (Douglas Booth), brigam pelo controle dos planetas. Descobre-se que Júpiter tem o mesmo código genético da matriarca da dinastia, o que garante o seu poder sobre a Terra. Mas este planeta é controlado pelo irmão malvado Balem, que vive em uma cidade construída com fortalezas de metal no planeta Júpiter, e vai fazer de tudo para que a jovem não reclame o seu direito, até mesmo sequestrar toda a sua família e trazer para o calabouço do planeta de metal.

Aqui retorna-se a Matrix. A ideia de que os seres humanos são cultivados para depois serem mortos se repete. Em O Destino de Júpiter, o maior interesse do trio Abrasax está na juventude infinita, apenas adquirida com a produção de um líquido feito com humanos. Então, eles cultivam humanos nos planetas até que a superpopulação torne a vida insustentável e chegue o momento da “colheita”.

Em tentativa de recuperar a Terra, a ingênua Júpiter é enganada sobre os reais projetos para os homens e quase põe tudo a perder em um casamento falso com Titus. Mas Caine reaparece para salvá-la.

Entre os diversos acontecimentos, há a tentativa de se construir um romance entre o casal protagonista. Mas são tantas as distrações que o relacionamento não se desenrola a ponto de ser possível adorar e torcer para que eles fiquem juntos em um final feliz. A tentativa, pelo menos (para o bem dos memes da internet), rende um dos diálogos mais cômicos da história do cinema, em que Caine diz que não pode se aproximar da moça, agora que ela era integrante da realeza e ele tinha mais em comum com um cachorro do que com ela. Sem titubear, Júpiter assume seu histórico de amor por cães em tentativa desesperada de ter a atenção do rapaz. “Mas eu sempre gostei de cachorros. Eu amo cachorros”, diz, arfando.

Ao contrário de Matrix, não há nada conceitual que leve o espectador a refletir sobre a fantasia criada para a raça humana. Pelo contrário, o que se vê é uma garota exuberante em situações extraordinárias, acompanhada sempre do seu parceiro-protetor-amante-bonitão. Em um ping-pong de Chicago para a Galáxia, o filme prossegue em um vai e vem que deixa o público quase tonto. Os irmãos Wachowski demonstram pouca habilidade em se concentrar em uma narrativa forte e tentam suprir as lacunas com grandiosos figurinos, construções cênicas e efeitos especiais que não podem ser comparados aos de outros títulos recentes, como os de Interestelar (Cristopher Nolan).