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O desgaste da fórmula Manoel Carlos

De rei do horário nobre, o novelista tem penado para manter audiência de novela das sete na faixa das nove por levar ao ar uma sociedade brasileira que já não existe na vida real

Na teledramaturgia brasileira há poucas certezas de sucesso. Uma delas é novela assinada por Manoel Carlos. Na trama Em Família, alardeada despedida do autor do horário nobre, a fórmula tantas vezes bem-sucedida continua intacta. Estão lá o modo de vida da classe média carioca, os romances complicados, diálogos triviais travados sobre a mesa do café da manhã, uma ou outra história tirada das páginas policiais dos jornais, tudo como sempre foi. O único problema é que dessa vez a fórmula consagrada por Maneco tem penado para manter constrangedores 30 pontos no Ibope, meta de audiência de novela das sete. A questão é saber se mudou o espectador brasileiro – ou se a falta de mudança no universo do autor se tornou um problema.

Em teoria, novela não precisa imitar a vida real. Representante da crônica social no horário nobre, contudo, Manoel Carlos sempre buscou o realismo e povoou suas tramas com representantes de todas as classes. Só que muitos desses personagens são definidos única e exclusivamente por sua condição social; são tipos, e não indivíduos. Esse retrato chapado passa longe da forma como a classe C, principal fatia de telespectadores da TV aberta atualmente, quer se ver espelhada. “As duas últimas novelas de maior sucesso – Avenida Brasil e Cheias de Charme — trabalharam com o imaginário de que é possível vencer na vida, apesar de todas as dificuldades, e promoveram a identificação de parte do público com os personagens mais próximos de sua realidade”, diz José Glaydson Pereira, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Culturas Midiáticas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Há dois exemplos claros na trama de Em Família, que ilustram a maneira como Manoel Carlos trata certos personagens de forma unidimensional. A empregada com mais espaço no enredo é Gorete (Carol Macedo), que morre em circunstâncias misteriosas causadas pela patroa Juliana (Vanessa Gerbelli), obcecada em adotar sua filha pequena. Gorete só existiu nos domínios da casa da patroa. Outra doméstica, a Ceiça (Ju Colombo) só passou a participar de mais cenas depois que a patroa Selma (Ana Beatriz Nogueira) ficou viúva. A partir de então houve a concessão para que ela se sentasse à mesa como a única companhia possível.

São aspectos difíceis de digerir depois do time de sucesso que saltou da área de serviço para o protagonismo em Avenida Brasil e Cheias de Charme. Hoje soa ultrapassado ver personagens definidos tão somente por sua condição social – por exemplo, empregadas domésticas fadadas a entrar e sair de cena apenas para servir de “orelha” (termo cunhado na teledramaturgia para definir personagens que servem apenas para que os protagonistas possam dizer o que pensam em voz alta) a seus patrões.

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Há quase três meses no ar, Em Família parece distante de superar o trauma de ter estreado com o pior Ibope para um primeiro capítulo de novela das nove na Globo – 31 pontos na Grande São Paulo – em todos os tempos. No último sábado, a trama atingiu os preocupantes 25 pontos na Grande São Paulo; a meta do horário é 40 pontos. A relevância de Em Família está fraca também nas redes sociais, um importante termômetro que ajudou a consolidar o sucesso de Avenida Brasil e, mais recentemente, de Amor à Vida, com a criação sem fim de memes inspirados nas pérolas ditas pelo vilão Félix (Mateus Solano). Na última semana, a novela foi a quinta mais comentada em ranking elaborado pela plataforma TV Square, criada para reunir comentários sobre programas de TV nas redes sociais. No período, a trama de Manoel Carlos reuniu 1,03% das postagens sobre novelas no ar contra 2,25% gerado pela mais comentada, a infanto-juvenil Chiquititas, do SBT. Para tentar reverter a tendência negativa, a trama tem focado no triângulo amoroso Cadu (Reynaldo Gianecchini), Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller) deflagrado pela perspectiva de romance homossexual entre as duas. O que também já não seria exatamente inovação, depois da abordagem de Viver a Vida sobre relacionamentos gays.

Somado a isso, um empecilho e tanto tem sido a inversão de papéis da heroína romântica da história, que deu um nó na cabeça dos telespectadores. A vida amorosa da protagonista Helena (Júlia Lemmertz) é um marasmo se comparada à de sua mãe Chica (Natália do Vale). Viúva, ela tem protagonizado as cenas mais românticas da novela ao lado de Ricardo (Herson Capri), novo amor descoberto na terceira idade. O clima de paixão é turbinado pela perseguição da ex-mulher de Ricardo, Branca (Angela Vieira), representante da dinastia de vilãs de mesmo nome nas novelas de Manoel Carlos já vivida inesquecivelmente por Susana Vieira em Por Amor (1997). “Essa confusão torna difícil para o público se engajar na trama”, diz a dramaturga Renata Pallotini, professora aposentada de dramaturgia da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Há, no entanto, um outro lado dessa história: uma estratégia clara da emissora de revezamento no horário. O bairro do Leblon embalado por canções da bossa nova, tão familiar ao público, foi estrategicamente levado ao ar pela TV Globo após uma esteira de inovações importantes em sua teledramaturgia. O tradicionalismo de Manoel Carlos contrasta propositalmente com a maior de todas, o primeiro beijo gay levado ao ar pela emissora, protagonizado por Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) no último capítulo da antecessora Amor à Vida. O rodízio de estilos é adotado pela emissora desde sempre e serve justamente para atender aos múltiplos gostos e perfis dos telespectadores. “Não dá para pensar em inovação o tempo todo, cada autor tem um estilo próprio e essa pluralidade é importante”, diz Maria Immacolata Vassallo de Lopes, professora titular do Centro de Estudos da Telenovela da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).

É inevitável, contudo, a comparação entre a receptividade obtida pelas tramas de autores “progressistas”, como João Emanuel Carneiro e Walcyr Carrasco, e “tradicionalistas”, como Maneco e Glória Perez. A julgar pelos resultados do Ibope, é inegável a predileção do público, neste momento, pelo primeiro time. A rocambolesca Salve Jorge, de Gloria Perez, chegou ao fim com a pior média de audiência da faixa das nove: 34 pontos na Grande São Paulo. Se nada mudar, a anunciada última empreitada de Manoel Carlos no horário nobre deve caminhar para o mesmo fim. Há quem defenda, porém, que Em Família ainda tem chances de reverter o jogo. “É uma novela instigante, que usou suas duas primeiras fases para apresentar os dilemas de seus personagens. Está, ainda, em processo de cativar uma audiência maior”, diz Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP (Universidade de São Paulo) e membro da Academia Internacional de Artes e Ciências da Televisão de Nova York.