Novelas da Globo lutam para se renovar sem perder a identidade

Embora Meu Pedacinho de Chão confirme o potencial criativo do gênero, as novelas da Globo lutam para se renovar sem perder a identidade

Por Marcelo Marthe - 12 jul 2014, 01h00

Vestido com calça de linho, colete justinho e um cachecol rosado que o integram perfeitamente à atmosfera colorida da novela Meu Pedacinho de Chão, o diretor Luiz Fernando Carvalho gasta a tarde em um exercício de perfeccionismo incomum no ritmo industrial da televisão: a pesquisa dos efeitos da iluminação sobre os figurinos da nova fase da trama. Nesta semana, o folhetim das 6 da Globo entra em sua derradeira mudança fantasiosa de estação. Muito apropriada, aliás, para a ressaca pós-Copa do Mundo: o inverno chegará à vila de Santa Fé. Intérprete do herói Ferdinando, o ator Johnny Massaro posa diante dos holofotes com uma roupa que lhe confere o aspecto de um cossaco. Uma máquina de neve artificial inunda o estúdio com flocos de espuma branca. De repente, os presentes começam a sentir coceira no nariz e na garganta. Técnicos e assistentes do diretor têm crises de tosse. Massaro não se aguenta e solta um espirro dramático. Eis um cantinho da Globo no qual se exercita sem trégua aquele velho clichê do meio teatral: vale tudo pela arte. Como submeter-se ao bombardeio de neve fajuta e irritante. A nevasca no set serve como alegoria de outra tempestade que se abate sobre o Projac, complexo de estúdios da emissora no Rio de Janeiro: a novela, o gênero mais popular da TV brasileira, congelou-se em uma era de incerteza criativa.

As três tramas em exibição na Globo fornecem um retrato da crise existencial dos folhetins. Em Família, que está em seus últimos dias na faixa das 9, investe na crônica de costumes que fez a fama do noveleiro Manoel Carlos, mas patina em um patamar de ibope próximo dos sofríveis 30 pontos na Grande São Paulo. Seu ocaso confirma: expedientes que antigamente se sustentavam na base do piloto automático hoje já não são infalíveis. Ao mesmo tempo, as novas experiências também têm efeito imprevisível. Criada por Filipe Miguez e Izabel de Oliveira, autores do sucesso Cheias de Charme, a novela Geração Brasil era tida como pule de dez para alavancar o horário das 7 com seu enredo moderninho sobre o mercado da internet. Mas não disse a que veio. Nesse quadro periclitante, Meu Pedacinho de Chão revelou-se uma bela surpresa. Antes da estreia, pouca gente botava fé no remake da história rural de Benedito Ruy Barbosa. O original, de 1971, era ingênuo e datado. Diretor que não abre mão de seu estilo “cabeça”, Carvalho colecionava séries impenetráveis e de baixa audiência, como A Pedra do Reino. Contra os prognósticos, a receita deu liga: com seus cenários e figurinos esmerados, Meu Pedacinho de Chão converteu o texto dos anos 70 em uma fábula que agradou às crianças. Seu ibope, de 18 pontos, é o mesmo das duas últimas atrações no horário.

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