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No precipício do obscurantismo

Precisamos lutar para que não tenhamos nenhum direito a menos

Nos últimos dias, voltou a circular nas redes o vídeo da entrevista que o candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, concedeu à premiada atriz e ativista Ellen Page em 2016. A entrevista faz parte da série Gaycation, produção da Vice em colaboração com a National Geographic. A série trata das manifestações da cultura LGBTI+ em diferentes países e das resistências que ela encontra pelo mundo.

O diálogo tenso entre a entrevistadora e o entrevistado merece ser visto na íntegra. Procurem. Mas um trecho requer atenção redobrada de quem se importa com os direitos das mulheres. Jair Bolsonaro diz a uma Page visivelmente constrangida, em determinado momento: “Eu acredito que grande parte dos gays é comportamental. Quando eu era jovem, falando em porcentual, existiam poucos. Com o passar do tempo, com as liberalidades, drogas, a mulher também trabalhando, aumentou bastante o número de homossexuais”.

Trata-se de mais uma afirmação para a grande coleção de declarações tacanhas, machistas e homofóbicas do candidato do PSL. São tantas que já perdi a conta. Nas entrelinhas, Bolsonaro articula duas noções que deveriam ter sido superadas e jamais reproduzidas por um homem público em suas falas em pleno século XXI. A de que a homossexualidade é em si algo ruim, um mal social. E a de que a conquista de direitos e liberdades não é um dado positivo. Ao contrário, compromete as tradições, distorce os valores, destrói a família. O correto para Bolsonaro, podemos intuir com base nessa posição, deveria ser a mulher se dedicar exclusivamente à casa e à família. Família, claro, formada por ela, seu marido provedor e filhas e filhos heterossexuais.

Seria perda de tempo seguir com a exegese de uma frase recheada de tamanha ignorância. Vou nos poupar disso. Devemos, a esta altura do campeonato, torcer para que as eleitoras e os eleitores mais razoáveis de Bolsonaro estejam fazendo a leitura adequada e que esse tipo de assertiva repetida reiteradas vezes pelo candidato seja “da boca para fora”. Ouço e leio tais eleitoras e eleitores dizer que não devemos levar tais posições do candidato tão a sério. Suspiro e espero que seja mesmo assim.

Contudo, acho inteligente nos prepararmos para o pior, sempre. Chamem de pessimismo metodológico. Caso o candidato do PSL, que hoje lidera as pesquisas de intenção de voto, seja eleito e de fato tome medidas que limitem as agendas de igualdade de gênero e liberdade sexual, precisaremos agir. Precisaremos contribuir para que este não seja um ciclo político de cerceamento de liberdade. Precisaremos, enfim, estar dispostas e dispostos a nos reunir, tendo ou não votado em Bolsonaro, e lutar para que não tenhamos nenhum direito a menos.

A sociedade brasileira hoje dividida precisará repactuar aquilo que considera inegociável. Temos de torcer para que a ONU, o papa, o New York Times, a revista The Economist e figuras públicas de direita e de esquerda, da libertária Madonna à paladina da extrema direita francesa Marine Le Pen, não tenham suas previsões confirmadas. E o país não pule no precipício do obscurantismo.

Publicado em VEJA de 24 de outubro de 2018, edição nº 2605