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Nelson Freire volta ao palco de seu 1º concerto público

Por AE

São Paulo – A leiteria hoje é uma agência bancária. Do Hotel Hudson, sobrou pouco mais que a fachada – e do Café Rio de Janeiro, um esqueleto impessoal, agora ocupado por uma loja de departamentos. O café já foi o ponto de encontro antes dos concertos – e as famílias, então, cruzavam a ponte de pedra sobre o riacho e se arrumavam nas cadeiras de madeira do Teatro Municipal de São João Del Rey. De tantas noites, dona Aline se lembra de uma, 31 de maio, 1950.

O vestidinho branco, mãos dadas com o irmão também todo arrumado. Estava com 9 anos. E ainda assim era mais velha que o garoto pianista que subiria ao palco. Aos 5 anos, ele vinha de Boa Esperança, e logo partiria em direção ao Rio. Um talento notável, seus pais, “muito musicais”, diziam. Ela própria não saberia dizer. Daquele dia ficou apenas a imagem daquele “menino lindo”, que deixou todo mundo impressionado.

Dona Aline não costuma se prestar a saudosismos, o progresso, afinal, é assim mesmo. Mas na noite de sexta, “noite quente, apesar do inverno”, não teve como interromper a memória. Na frente do teatro, o sorriso tenta disfarçar, mas entrega a “sem-gracice”. Minutos antes, reviu aquele menino. Continua lindo – e é um senhor, agora. Ela seguiu outro caminho, optou pelo balé clássico. Mas nunca se afastou da música. Tem todos os seus discos e não hesita em chamá-lo de “um dos maiores do mundo”. Tem certeza de que ninguém toca Chopin melhor do que ele. “Nelson Freire”, ela repete o nome em voz alta. “Dá nem para acreditar que eu ia voltar a ver ele aqui, nesse teatro.”

Freire chegou a São João no começo da noite de sexta. Foi direto ao teatro. Mal desceu do carro e já foi rodeado por amigos, que vieram à cidade para o recital – e por três equipes de televisão que desde o começo da tarde bloqueavam o trânsito na rua em frente ao teatro, no centro da cidade, ansiosas para registrar o retorno do “filho adotivo” da terra.

O recital comemora os 15 anos da série “Música no Museu” e, com dois anos de atraso, por conta de problemas de agenda, os 60 anos da estreia profissional de Freire, naquela noite de maio, aqui mesmo nesse palco construído em 1893. “É difícil lembrar de tudo”, ele diz, ainda um pouco atordoado pelo movimento. Freire subiu ao palco com cerca de quarenta minutos de atraso. Começou com a “Sonata em Lá Maior KV 331”, de Mozart, e a “Sonata ao Luar”, de Beethoven.

No prelúdio das “Bachianas Brasileiras nº4”, de Villa-Lobos, ele fez da melancolia, tristeza; da força, intensidade. Evocou todas as vozes da “Alma Brasileira”, interpretada em seguida. Granados, Chopin. Pouco mais de uma hora de música foi suficiente para repassar todas as qualidades do piano de Nelson Freire – o gosto pelo detalhe na construção do todo, a exploração dos coloridos, um senso de estilo traduzido em um toque extremamente pessoal. Veio então o primeiro bis, a melodia de “Orfeu e Eurídice”, de Gluck, sua eterna homenagem a Guiomar Novaes – e, de certa forma, àquilo que a música significa para ele. Ali, nota a nota, a ficha de Nelson parecia, enfim, ter caído. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.