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Nas alturas, sozinho

'Rocketman' mostra as aventuras e infelicidades de Elton John, mas falha ao não apresentar propriamente à plateia a música fantástica do cantor e compositor

Já há alguns anos o topo da bilheteria de cinema é tão engarrafado quanto o do Everest, com filas de super-heróis acotovelando-se por uma chance de fincar sua bandeira. Em 2018, porém, um aventureiro abriu uma nova rota para o pico: feito por comedidos 52 milhões de dólares, ­Bohemian Rhapsody rendeu mais de 900 milhões graças à combinação de simplicidade e apoteose com que retratou Freddie Mercury, o vocalista do Queen. Cinebiografias musicais eram até aí um subgênero abandonado. Mas, somando-se esse êxito ao de Nasce uma Estrela, ele ressurge como uma grande aposta — o que só acentua as expectativas em torno de Rocketman (Inglaterra/Estados Unidos, 2019), já em cartaz no país. O retratado da vez é Elton John — como Mercury, um astro de origens improváveis, um ícone do rock e da ferveção gay dos anos 70 e um músico transbordante de talento, de carisma e de questões pessoais que a fama agravou. Mas, se Bohemian optava por narrar a trajetória do Queen em compassos já consagrados, que conquistavam de imediato o espectador, Rocketman ousa um pouco mais no formato — e nem sempre colhe os resultados almejados.

Um acerto indiscutível é a escolha do ator principal. Revelado em Kingsman: Serviço Secreto, Taron Egerton é o motor do filme, em um desempenho de energia e entrega notáveis. Leva, ainda, uma vantagem rara: tem uma voz excepcional e cantou todas as canções do filme, das emotivas, como Your Song e Tiny Dancer, às mais aceleradas, como Crocodile Rock, sem truques e com impressionante fidelidade ao espectro e às características vocais de Elton John (até já se apresentou em par com o próprio, aliás).

Se Egerton é o centro em ebulição do filme, os contrapontos não são menos felizes: Jamie Bell é encantador como Bernie Taupin, o inseparável (e magistral) compositor das letras de Elton; Bryce Dallas Howard está um estrondo como a mãe difícil que, em conjunto com o pai que obviamente preferia não sê-lo, encheu o pequeno e rechonchudo Reginald Dwight (o nome de batismo de Elton) de dúvidas e infelicidades; e Richard Madden dosa erotismo, pragmatismo e cafajestagem no papel de John Reid, o empresário que seduziu Elton até assinar com ele um contrato e então passou a tratá-lo feito lixo. (Rocketman é um bocado mais franco do que Bohemian, aliás, na maneira como mostra os excessos químicos e sexuais do personagem.)

Em outros aspectos, entretanto, Rocketman provoca um tanto de frustração. Uma das providências certeiras de Bohemian foi tornar o filme não apenas uma biografia, mas uma apresentação mesmo da música do Queen, de forma que o grande contingente de espectadores jovens demais para conhecer o catálogo da banda era rapidamente incluído na festa. O diretor inglês Dexter Fletcher — que assumiu as cenas ainda por filmar de Bohemian quando o titular Bryan Singer foi demitido — prefere uma abordagem mais dramatúrgica dos sucessos de Elton John em Rocketman: quase sempre utiliza apenas fragmentos deles na costura de uma narrativa que lembra um musical de palco — incluindo-se aí as coreografias que dramatizam as emoções do personagem. É mais criativo, e também mais coeso — porém menos galvanizante. Para uma carreira tão repleta de culminações quanto a de Elton John, é curioso que a homenagem deixe a sensação de anticlímax.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2019, edição nº 2637

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