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Nada dentro do capuz

É baixa a proporção de acertos nas versões da lenda do arqueiro que roubava dos ricos para dar aos pobres. Mas poucas falharam como 'Robin Hood — A Origem'

Às vezes ele é apresentado como um membro da baixa nobreza que, ao voltar das Cruzadas, encontra sua propriedade arrestada e seus meeiros, cruelmente explorados pelo xerife de Nottingham; outras vezes é um plebeu de quem o mesmo xerife tomou tudo. Às vezes seu vilarejo é grafado como Locksley, outras vezes como Loxley — e a bela Marian (ou Marion) pode ser a namoradinha que ele agora reencontra ou uma donzela que acaba de conhecer. Se o nascedouro da lenda é incerto (a primeira menção literária data de 1377), não há dúvida sobre as razões de sua permanência. A vida das nações é repleta de momentos em que se sente que a lei se divorciou da justiça — e sempre haverá algo de romântico na imagem de um jovem que, em vez de se deixar abater ou de se conluiar com os opressores, toma a resolução de combatê-los. Se não abertamente — o que o levaria à morte em dois tempos —, então por meios oblíquos e deliciosamente imaginativos: ocultando sua identidade, juntando-se a um bando de foras da lei e, munido do arco em cujo manejo é um ás, criando infinitas oportunidades de vexame, humilhação e desonra para o xerife e seus asseclas. Entre as figuras folclóricas que adquiriram força de mito, Robin Hood compete com o rei Arthur em interesse do cinema e da TV. São dezenas de adaptações, mas poucas tão ruins quanto Robin Hood — A Origem (Robin Hood, Estados Unidos, 2018), já em cartaz no país.

 (Arte/VEJA)

Trata-se de um fiasco quase espetacular na maneira como consegue errar em tudo, do penteado assentadinho do ator Taron Egerton (que parece ter saído da alfaiataria que frequenta em Kingsman direto para a Inglaterra do século XII) aos figurinos que lembram sobras dos fashionistas da Capital em Jogos Vorazes. Ainda que se dê um desconto em vista da baixa proporção de êxitos (veja o quadro ao lado), é raro uma versão equivocar-­se tão completamente. Duas hipóteses para o fracasso desta aqui: faltam-lhe o júbilo e a inocência das adaptações que comemoram a aventura de Robin e seus amigos da floresta de Sherwood; e falta-lhe também o gume daquelas que se valem de Robin para comentar um sentimento político.

Sejam quais forem suas variações, a lenda coloca sempre Robin Hood no norte da Inglaterra, nos anos finais do século XII, que já correra todo em tumulto em razão da invasão de 1066 dos normandos e da subsequente erradicação feroz das hierarquias e dos costumes saxônicos. Os anos 1190 transcorriam particularmente complicados: vinham marcados pela ausência do rei Ricardo I, o “Coração de Leão”, nas Cruzadas, e pela conspiração incessante de seu irmão e regente interino, o príncipe João, para apossar-se do trono. Verdade seja dita, Ricardo I nunca deu a mínima para a Inglaterra, e pouco a frequentou. Teria sido melhor para o reino que também João fosse tão indiferente: fraco, tolo, incompetente e sedento de poder, ele extorquiu os súditos para financiar suas tramas contra Ricardo I e sua obsessão em anexar as partes da França que considerava suas de direito. Mas teve de esperar o irmão morrer, em 1199, para ganhar o cetro, e apanhou tão feio dos franceses que perdeu até o que já era seu. Em 1215, com seus barões em franca revolta, viu-se obrigado a assinar a Magna Carta e limitar seus poderes. Ou seja: qualquer versão mais engajada, por assim dizer, de Robin Hood tem de prestar contas a essa indignação de uma nação que não se reconhece no seu governante. Para bom entendedor, meia palavra basta. Para um mau entendedor como Robin Hood — A Origem, nem soletrá-­la inteira adianta.

Publicado em VEJA de 5 de dezembro de 2018, edição nº 2611