Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Na série-fenômeno ‘Mr. Robot’, herói é hacker atormentado

Programa que foi a sensação do ano na televisão americana chega ao Brasil nesta segunda

Durante o dia, Elliott (Rami Malek), sempre camuflado pelo capuz de seu moletom, é invisível. À noite, ele luta contra o que considera as injustiças do mundo. O protagonista de Mr. Robot, série de Sam Esmail que foi a sensação na televisão americana, é uma espécie de super-herói: mas, em vez de contar com um cinto de utilidades como o de Batman ou com uma audição aguçada como a do Demolidor, sua arma é o computador. Elliott trabalha em segurança de rede para empresas durante o dia, especialmente a ECorp, que ele chama de “evil corp”, ou “corporação maligna”, e à noite faz de tudo para derrubá-la. Sua motivação é pessoal: seu pai morreu de leucemia, provavelmente causada pelo ambiente de trabalho insalubre da companhia. Ele então é recrutado por Mr. Robot (Christian Slater), líder do FSociety, um grupo de hackers criado para fazer a revolução, a começar pelo perdão de todas as dívidas – os hackers podem invadir sistemas e simplesmente apagar os débitos. A série – que estreia nesta segunda-feira, dia 2, no Brasil, onde terá exibição de segunda a quinta no canal Space, às 21h, até dia 12 – captura o clima atual, marcado pela desconfiança geral em relação à política e a certas práticas adotadas pelas grandes corporações, assim como pelas dificuldades da classe média para manter o seu padrão de vida.

LEIA TAMBÉM:

‘Mr. Robot’ já está renovada para sua segunda temporada

‘Mr. Robot’, ‘Limitless’ e ‘Zoo’ chegam ao Brasil pelo canal Space

“O assunto hacking não era tão relevante até gravarmos o piloto. Aí, aconteceu o problema com a Sony, do vazamento de e-mails de executivos da empresa, e todo mundo começou a prestar atenção”, disse Slater em entrevista durante o Festival de Zurique. “Foi bom para a série, mas, para o mundo, é aterrorizante. Muitas vezes, estávamos gravando uma cena e, ao abrir o jornal, víamos que exatamente a mesma coisa estava acontecendo em algum lugar.” A exibição do último episódio foi adiada em uma semana, porque uma das cenas lembrava o caso do cinegrafista e da repórter de televisão que foram mortos ao vivo, no Estado de Virginia, em agosto.

“Depois do seriado, tenho mais consciência de várias coisas. A internet é uma ferramenta incrível, mas também é perigosa”, diz Slater. “Você precisa trocar suas senhas constantemente e realmente prestar atenção no que faz on-line.”

“Eu diria: a série é sobre hoje, cem por cento”, afirma Sam Esmail, no mesmo festival. “Por meio dos olhos desse personagem, nós vemos como é viver hoje em Nova York. É um filme de época sobre 2015.”

Isso explica por que o diretor não deu tanta bola para a constante evolução da tecnologia, que certamente vai ficar datada em pouco tempo. Em vez disso, Esmail, um americano de origem egípcia, dedicou-se à criação dos personagens. Elliott é inspirado na experiência de seus tios e primos com a Primavera Árabe. “Fui ao Egito logo depois do levante. Eles estavam contra o governo, e tentaram canalizar isso para uma mudança positiva. Achei muito bonito, é uma coisa que não se vê mais nos Estados Unidos”, disse. O personagem é frequentemente comparado a Holden Caufield, de O Apanhador no Campo de Centeio, o clássico de J.D. Salinger. “Pensei nessa raiva, nessa ansiedade juvenil, um pouco ingênua, exagerada, muito apaixonada”, contou Esmail, que, antes de Mr. Robot, só dirigiu um curta-metragem e o longa Eu Estava Justamente Pensando em Você, lançado no Brasil há poucas semanas.

Como todo personagem ficcional do século XXI, mesmo os super-heróis, Elliott tem suas falhas e fraquezas – a sua kryptonita. O rapaz sente enorme dificuldade de se relacionar até mesmo com Angela (Portia Doubleday), sua amiga de infância, que perdeu a mãe em circunstâncias similares às do pai de Elliott – os dois trabalhavam no mesmo lugar. Para lidar com sua inabilidade social, ele se afunda nas drogas. É uma das grandes sacadas da série, investir no desenvolvimento do personagem e revelar seus mistérios (e os de Mr. Robot) aos poucos, em vez de ficar presa apenas às suas atividades como hacker.


“Quando comecei a dar entrevistas sobre Mr. Robot, respondia muitas perguntas sobre tecnologia e hackers. Ficava um pouco desapontado no final, sabia que a história era muito mais do que isso”, disse Malek, para quem a série trouxe de volta um pouco de idealismo. “Esse não é meu mundo. Meu mundo são as emoções humanas.” O ator diz que se preparou exaustivamente para saber do que estava falando nos diálogos sobre tecnologia, mas que entende que esse é apenas um caminho para contar a história. Mais importantes são os monólogos internos de Elliott.

O ator de 34 anos, que tinha feito pequenos papéis em Uma Noite no Museu e A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2, é uma revelação. Como a série, Malek é forte candidato às premiações do ano que vem. De origem egípcia, como Sam Esmail, ele festeja a possibilidade de ser protagonista de uma série sem que sua ascendência ou sua aparência sejam aspectos definidores. “Alguns anos atrás, meu agente me avisava que eu tinha perdido um papel por não ser ‘étnico o bastante’. Outras vezes, eu era étnico demais”, diz. “Mas a série tem no comando alguém que não pensou duas vezes sobre o assunto.”

Além da narrativa ousada, misteriosa, o visual de Mr. Robot, inspirado na obra de Stanley Kubrick (Laranja Mecânica, 2001 – Uma Odisseia no Espaço), também chamou a atenção. Produzida pelo canal USA nos Estados Unidos, ela tem qualidades cinematográficas raras mesmo na chamada era de ouro da TV americana. E Esmail conseguiu tudo isso filmando um episódio de uma hora por semana.

“Claro que gostaria de ter mais tempo, mas o fato de o seriado ser cinematográfico não tem nada a ver com isso e sim com as escolhas que fizemos e com as quais nos comprometemos”, afirmou o diretor. “O enquadramento, a maneira como compomos nossas tomadas e nossas regras sobre quando mover a câmera e quando não mover a câmera, tudo isso precisa ser mais planejado, especialmente por não termos tempo de produção. Estamos comprometidos com uma voz e um visual.”

O apuro estético fez com que Mr. Robot, cuja segunda temporada já foi confirmada para ano que vem, fosse convidada para festivais de cinema como o South by Southwest, em Austin, o Tribeca, em Nova York, e o de Zurique, onde o diretor e os atores falaram ao site de VEJA. “Isso é prova de que a televisão tornou-se o novo cinema independente. Ficou muito mais difícil para os cineastas independentes levantarem dinheiro para seus filmes. Então há essa nova plataforma para eles se expressarem criativamente, com liberdade”, comentou Slater. E com razão. Formado pela New York University, Esmail começou a desenvolver Mr. Robot como um longa-metragem, mas acabou encontrando na televisão o espaço criativo e o investimento de que necessitava – mais uma prova de que o meio absorve grande parte dos talentos do cinema por causa da dificuldade de financiar projetos para a sala escura. Sorte da televisão, azar do cinema.