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Movimento perpétuo

Em 'A Pé Ele Não Vai Longe', Joaquin Phoenix e o diretor Gus Van Sant formam a dupla ideal para entender o cartunista John Callahan

Vagando pelas ruas com seu cabelo cor de laranja desgrenhado, a camisa havaiana amarrotada e os óculos enormes, John Callahan é a personificação do sujeito baratinado — e, enquanto narra a cena na qual se apresenta, avisa que este é o último dia em que vai andar sobre os próprios pés. Ainda intoxicado pela bebedeira da noite anterior, ele se apressa para comprar uma nova garrafa de tequila antes que a ressaca bata. Atravessa cruzamentos sem olhar, corre para lá e para cá arrastando os chinelos — então é agora?, pensa o espectador. Ele vai ser atropelado? Vai cair e fraturar a coluna no meio-fio? Não: Callahan ainda vai aprontar muito, e ficar incrivelmente mais bêbado do que já está, antes de afinal abusar demais da sorte e acordar tetraplégico no hospital — um rude despertar que ele enfrenta com plena noção da tragédia mas também com humor sardônico. Joaquin Phoenix, o ator mais imprevisível de sua geração (e de outras tantas gerações), é o intérprete ideal para esse personagem autodestrutivo e, paradoxalmente, cheio de vida. Da mesma forma, Gus Van Sant, que nunca se preocupou em encaixar seus filmes dentro deste ou daquele gênero, é o diretor perfeito para A Pé Ele Não Vai Longe (Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot, Estados Unidos/França, 2018), já em cartaz no país.

Callahan tinha 21 anos em 1972, quando sofreu o acidente que roubaria a maior parte de seus movimentos. Viveu outros 38 em uma cadeira de rodas que pilotava como se estivesse em um circuito de corrida — e, ao longo desse período, descobriu-se um cartunista de talento e também de notável dom para a controvérsia: seus desenhos faziam chover cartas chocadas e ofendidas em redações como a do jornal Willamette Week, de Portland, no Oregon, um dos mais assíduos na publicação de seus trabalhos. O título do filme — e do livro de memórias em que ele se baseia — é a legenda de um de seus cartuns mais cáusticos: A Pé Ele Não Vai Longe é o que um caubói a cavalo diz a outro ao encontrarem uma cadeira de rodas virada no meio do deserto.

Callahan detestava a piedade alheia e não dava a mínima para as críticas à sua incorreção política. E, assim como ele soube escapar das armadilhas sentimentais e de vitimização do seu infortúnio, também Van Sant as dribla. As linhas de tempo se entrecruzam com uma inquietude que o espectador não tarda em identificar como o traço dominante de Callahan: a fase logo anterior ao acidente, as várias etapas da recuperação física e o atribulado período da tentativa de vencer o alcoolismo — com a ajuda do programa de doze passos e de um mentor interpretado com firmeza e doçura melancólica por Jonah Hill — acotovelam-se na narrativa, brigando para roubar lugar umas às outras. Se, de início, isso causa alguma confusão, no longo prazo o recurso se prova um acerto formidável: ao recusar a cronologia, o diretor de sucessos comerciais como Gênio Indomável e de experimentações fascinantes como Elefante garante que Callahan não termine definido pelo que aconteceu a ele, mas sim pelo que foi — o homem impaciente, engraçado, criativo, afetuoso e mordaz que Phoenix encarna sem engrandecimento, e com infinita curiosidade.

Publicado em VEJA de 2 de janeiro de 2019, edição nº 2615