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Morre Lily Marinho, aos 89 anos

Viúva do jornalista Roberto Marinho sofreu falência múltipla dos órgãos

Com Roberto Marinho, viveu uma história de amor na velhice definida por ela própria como “a prova de que o amor e a ternura podem bater à nossa porta nas horas tardias”

Morreu nesta quarta-feira, no Rio de Janeiro, Lily Marinho, viúva do empresário Roberto Marinho, fundador das Organizações Globo. Lily tinha 89 anos e, ao longo de quase sete décadas, ocupou lugar de destaque na sociedade carioca, ao lado de dois dos mais poderosos homens de imprensa do Brasil. Nascida na Alemanha e criada na França, Lily veio muito jovem para o Brasil e, aos 17 anos, casou-se com o empresário Horácio de Carvalho, dono do Diário Carioca, um dos mais importantes jornais da época. Nos anos 1940, conheceu Roberto Marinho, que ainda iniciava sua carreira. Cinco décadas depois, com Lily já viúva, os dois se reencontraram e se apaixonaram. Ele se separou para casar-se com ela em 1989, e os dois viveram até a morte dele um romance narrado por ela com grande sinceridade, carinho e bom humor no autobiográfico Roberto & Lily, lançado em 2004.

Na juventude, Lily Marinho foi miss França, e quase se tornou atriz. Mas sua verdadeira e plenamente exercida vocação era a de esposa. Primeiro com Horácio de Carvalho, com quem ficou casada por 45 anos, depois com Roberto Marinho, ela construiu um estilo peculiar de viver em função de homens de destaque na cena brasileira. Conviveu de perto com todo tipo de gente famosa e poderosa – presidentes, príncipes, reis, artistas, e foi anfitriã de algumas das festas mais concorridas já realizadas no Rio de Janeiro, sem se deixar ofuscar.

Foi uma pessoa de opiniões firmes, e de uma sinceridade inesperada para uma mulher em sua posição. Criticava as socialites que insistiam em trabalhar. “Tiram o emprego de quem precisa”, dizia. Também não se conformava com o excesso de cirurgias plásticas. “Pode-se esticar tudo, mas o olhar continua velho.” Em entrevistas, admitia ter ciúme de Roberto Marinho ao ponto de mudar o canal da TV se ele elogiasse a beleza de alguma moça. Ao decidir desfazer-se em vida da maior parte de seu patrimônio – inclusive as jóias espetaculares que ganhou de Carvalho e Marinho ao longo da vida – justificou: “A gente sabe que quando morre alguém e deixa alguma coisa, sempre há brigas. E, no caso de alguém que tem quatro noras, é mais complicado.”

Com Roberto Marinho, viveu uma história de amor na velhice definida por ela própria como “a prova de que o amor e a ternura podem bater à nossa porta nas horas tardias”. Depois de sua morte, manteve intacta a estupenda mansão do Cosme Velho, com os flamingos de que o marido gostava e o jardim onde os dois passeavam de mãos dadas. Também manteve, depois de viúva, a tradição de grandes almoços, festas e recepções. Na campanha eleitoral do ano passado, recebeu a então candidata Dilma Rousseff para um almoço só para mulheres, e num discurso muito bem articulado, saudou a “senhora D”, referindo-se à democracia brasileira.

Ao lado da intensa vida social, apoiava obras de caridade, era embaixadora da Boa Vontade da UNESCO e teve participação importante na vida cultural do Rio. Junto com Roberto Marinho, trabalhou para que a cidade recebesse as grandes exposições de Claude Monet e Auguste Rodin. Por esse trabalho, foi condecorada pelo governo da França com a Legião de Honra. Estava internada desde o dia 13 de dezembro numa clínica da zona Sul do Rio de Janeiro, com infecção respiratória. Morreu no início da noite desta quarta-feira, de falência múltipla dos órgãos. O velório será nesta quinta-feira pela manhã, no cemitério São João Batista.