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Merchandising social de ‘Segundo Sol’ vem como surra no preconceito

Em uma semana, as irmãs Maura e Rosa são expulsas de casa pelo pai machista e homofóbico, ao descobrir que são ‘fanchona’ e ‘quenga’

Quem disse que João Emanuel Carneiro não faz merchandising social? Em uma semana, Segundo Sol expôs de modo quase didático o preconceito que vinha mostrando, de forma não muito velada, em alguns de seus personagens. O mais medonho deles é Agenor (Roberto Bonfim), garçom já repreendido pela patroa por assediar uma cliente no restaurante em que trabalha e que, entre quinta passada e esta quarta-feira, expulsou de casa as duas filhas, Rosa (Letícia Colin) e Maura (Nanda Costa), ao descobrir que uma era “quenga” e a outra, “fanchona”.

Machista empedernido, Agenor ainda jogou a “culpa” na mulher, Nice (Kelzy Ecard), que, submissa ao marido, só fez lamentar a perda das filhas. “Uma sapatona e outra p…, duas aberrações. E a culpa é sua”, disse para a esposa chorosa, que pedia que ele esperasse a raiva passar para pensar com a cabeça fria. De nada adiantou – Nice só levou patada do patriarca autoritário e cada vez mais solitário.

Nesta quinta, depois de ouvir da cafetina Laureta (Adriana Esteves) que havia “fila de homem” para Rosa, Agenor atirou a filha na rua, literalmente, e gritou para quem passasse por perto que era uma garota-de-programa. “Eu não tenho mais filha. Eu não tenho filha quenga, prostituta.”

Com Maura, no final da semana passada, a reação foi semelhante. O pai se mostrou decepcionado pela “escolha” ou “desvio” da filha “sapatona”, pelo que seria advertido por Rosa, quando ainda tinha o seu segredo protegido e era aceita pelos pais. Na mesa do café-da-manhã, ela tentou explicar aos dois que ninguém escolhe de quem vai gostar e que eles deviam pedir perdão a Maura, uma ótima pessoa, pela injustiça, e não o contrário – Agenor chegou a dizer que não perdoaria a filha.

Quem acha que merchandising social é coisa de Gloria Perez deve repensar seus conceitos sobre as novelas da Globo. João Emanuel é mais sutil, é fato, mas fica claro, nas tramas de Maura e Rosa, como as duas, personagens sem defeitos, são oprimidas por um monstrengo eivado de preconceito. Só falta desenhar para mostrar como Agenor está errado.

Um post feito pela atriz Letícia Colin no Instagram depois da exibição da humilhação de Rosa também comprova o papel social da personagem. “Rosa é livre e sabe disso. É dona de seu destino, da sua vida e de seu corpo. Enfrenta o que for por seus objetivos. E por ser livre, numa casa onde a mulher não tem voz, passa a ser tratada como uma ‘aberração’”, escreveu. “É assim que funciona o machismo: a glória aos homens, e a culpa, a vergonha, a sombra, sempre para a mulher. A sequência da expulsão de Rosa foi um momento marcante da minha carreira. Vivi intensamente esses dias de gravação e pude mais uma vez me orgulhar dessa história que estamos contando, dessa mulher incrível criada pelo João Emanuel e desse trabalho de provocar o pensamento, estimular o diálogo.”

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Sou grata a Rosa. Vivê-la é me revirar. É dançar, é fluir, e gritar, é repensar. Rosa é livre e sabe disso. É dona de seu destino, da sua vida e de seu corpo. Enfrenta o que for por seus objetivos. E por ser livre, numa casa onde a mulher não tem voz, passa a ser tratada como uma “aberração”. Duas filhas, “uma puta e outra sapatona”, seu pai diz. E a “culpa”- oi? – disso é da mãe das meninas, afinal ele “cumpriu com suas obrigações”, dando o sustento ao lar. É assim que funciona o machismo: a glória aos homens, e a culpa, a vergonha, a sombra, sempre para a mulher. A sequência da expulsão de Rosa foi um momento marcante da minha carreira. Vivi intensamente esses dias de gravação e pude mais uma vez me orgulhar dessa história foda que estamos contando, dessa mulher incrível criada pelo João Emanuel e desse trabalho de provocar o pensamento, estimular o diálogo. O ser humano tem valor. O ser humano cria, pensa, vive. O ser humano é pra viver, com sua diferença e singularidade. Rosa, eu te amo! Obrigada por tudo isso que estou vivendo com você.

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Em tempos de intolerância, o didatismo pode mesmo cair bem. Mas nem só de didatismo são feitas as cenas – melhor, porque assim ficam mais interessantes. O momento em que Laureta conta aos pais de Rosa que ela exerce “a mais antiga das profissões”, por exemplo, mistura com habilidade tensão e humor. As frases da cafetina são afiadas. “Rosa não contou para vocês? Ah, essa juventude”, solta Laureta num momento. “Não tem diálogo na família brasileira hoje. Todo mundo só no celular”, diz em outro. E, numa falsa defesa da garota: “Tá pensando o quê? Quem é que paga o aluguel dessa casinha, depois que vocês perderam o apartamento? Meu dinheiro e o suor dela. Esse corpinho trabalha, viu”.

Contribui para diluir o didatismo da novela, também, o fato de os mocinhos da trama serem eles também mascarados, e para camuflar crimes de verdade. Beto Falcão (Emilio Dantas) se passa por Miguel e agora por Marçal, seu pseudônimo musical, e Luzia (Giovanna Antonelli) é a DJ Ariella. Ele esconde que fingiu a própria morte para faturar com a fake new. E ela foge da justiça, já que foi condenada, ainda que injustamente, por um homicídio que cometeu sem intenção.

Se Maura e Rosa escondiam identidades das quais não deveriam se envergonhar, o mesmo não se pode dizer de Beto e Luzia. O merchandising social não é pela verdade a qualquer custo. Nem tudo é tão simples, como mostra Segundo Sol. Um acerto da trama: apesar dos absurdos que carrega – por que Roberval ainda não contou a Cacau sua história, razão de sua vingança contra os Athayde, vingança que causa desencanto na cozinheira? –, ela se aproxima da realidade.