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Meninas de rosa

Calma, ministra Damares. No Oscar 2019, a cor estava mais para manifesto feminista do que para preservação de costumes. Até um menino (gigante) usou

Sem um apresentador para dar liga aos diversos segmentos e, principalmente, para fazer piadas inconvenientes, o Oscar 2019, segundo a avaliação geral, foi uma chatice só. Salvou-se pela diversidade nunca antes vista: negros, hispânicos, asiáticos, muçulmanos, mulheres — todas as tribos tiveram a chance de sair com uma estatueta ou, no mínimo, apresentar alguma premiação. Par e par com a infinidade de discursos ativistas, as estrelas do tapete vermelho deram seu recado usando vários tons de cor-de-rosa. Não foi uma ação de caso pensado, como as atrizes que se cobriram de preto no Globo de Ouro de 2018, logo após a eclosão do escândalo de abusos sexuais do produtor Harvey Weinstein. Mas, assim que o rosa se fez predominante, as redes sociais chacoalharam com outra lembrança, essa de 2017, quando, na posse de Donald Trump, marchas de mulheres tomaram as ruas usando gorros nessa cor (a inspiração vem de uma das muitas frases perturbadoras do presidente, mas trata-se de outra história).

Entre as que se renderam aos vários tons de rosa, duas atrizes se destacaram. A inglesa Emilia Clarke brilhou em um arrasador Balmain resvalando no lilás e colado ao corpo (“Não posso nem pensar em fazer xixi”, comentou no Instagram), que, junto com o cabelo curtinho e castanho, transformava em outra pessoa a Daenerys Targaryen de Game of Thrones. Na mesma linha escultural, a atriz KiKi Layne, de Se a Rua Beale Falasse, atravessou seu primeiro tapete vermelho em um Versace arrematado por enorme laçarote. Banheiro, para ela, também estava fora de cogitação.

Em uma cerimônia empenhada em apagar a fama de racismo dos Oscars anteriores, o longa Pantera Negra, de elenco integralmente afro-americano, foi indicado para sete estatuetas, levou três (figurino, design de produção e trilha sonora original) e fez história na premiação, que, em geral, torce o nariz para filmes de super-heróis. Sua representante em rosa, a veterana Angela Bassett, 60 anos, equilibrou com propriedade tanto a manga gigante quanto a fenda até o alto da coxa.

…SOBRE TOM – Momoa: elástico de cabelo no pulso

…SOBRE TOM – Momoa: elástico de cabelo no pulso (Richard Shotwell/Invision/AP)

Nem tudo foi beleza pura no desfile cor-de-rosa do Oscar 2019. A cantora country Kacey Musgraves, ganhadora de quatro prêmios no último Grammy, apareceu com um longo de tule repleto de babados que reverberou nas redes sociais — nove entre dez comentários comparavam o traje a uma esponja de banho daquelas cheias de camadas. Só foi menos criticada que Linda Cardellini, atriz do melhor filme, Green Book, que vestiu um modelo fúcsia com muito mais babados ainda, cauda longa e pernas de fora. As redes não perdoaram: parecia, segundo os posts desairosos, a mesma esponja, só que desmontada.

Uma das poucas grandes divas de Hollywood presentes, Julia Roberts dispensou o tapete vermelho e só apareceu no palco para entregar a estatueta de melhor filme, de longo rosa-choque de um ombro só e sandálias da mesma cor. A mais aberta manifestação de que o rosa, ali, firmava posição partiu da inglesa Helen Mirren, 73 anos e charme de sobra em um esvoaçante vestido de chiffon multirrosado. Antes de apresentar o prêmio de melhor documentário ao lado do gigante Jason Momoa, comentou sobre o smoking dele: “Isso mostra que nos dias de hoje uma senhora de idade e um deus havaiano podem usar a mesma cor, e essa cor é rosa”. Momoa ainda assessorou seu smoking de veludo com um elástico recoberto do mesmo tecido no pulso, pronto para prender a cabeleira. As redes, juízas implacáveis, adoraram.

Publicado em VEJA de 6 de março de 2019, edição nº 2624

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