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“Márquez foi um Homero latino-americano”, diz especialista

Colombiano precursor do movimento realismo fantástico deu projeção à literatura feita por latino-americanos na Europa e Estados Unidos

O colombiano Gabriel García Márquez, morto nesta quinta-feira, é um caso raro de escritor famoso, best-seller e muito, muito prestigiado pela crítica. No Brasil, seus títulos, publicados pela editora Record, já venderam 2,6 milhões de cópias. No mundo, foi traduzido para mais de 30 idiomas e soma mais de 40 milhões de exemplares vendidos, segundo o jornal espanhol El País.

A fama, as vendas e o prestígio vieram com sua obra definitiva, Cem Anos de Solidão, de 1967, que só no Brasil teve cerca de meio milhão de exemplares comercializados. Marco fundador da corrente conhecida como realismo fantástico, o livro deu projeção mundial ao colombiano e de quebra chamou atenção para autores de países vizinhos, fazendo da literatura latino-americana um xodó da crítica e um fenômeno de vendas. O argentino Jorge Luis Borges, o peruano Mario Vargas Llosa e o mexicano Carlos Fuentes são alguns dos autores que se beneficiaram da súbita atenção que o subcontinente passou a atrair.

“Quando Gabo surgiu, já existiam autores importantes por aqui, como Borges e Jorge Amado, mas ele abriu as portas para a literatura da América Latina no Primeiro Mundo e se tornou uma referência”, diz Sergio Machado, representante do grupo editorial Record.

“Márquez tinha um talento que não se ganha pelo exercício da escrita. Seu principal trunfo foi dar vida ao espírito criador e libertário da América Latina”, diz Jézio Gutierre, professor de filosofia da Universidade Estadual Paulista e editor executivo da editora Unesp. “Era um cronista da jornada do herói. Ele transcreve a trajetória de heróis malditos e benditos, com características regionais, como o Coronel Buendía, de Cem Anos de Solidão. São heróis do continente. Como diz Liev Tolstoi, fale de sua aldeia, mas de maneira universal. E ele faz isso. Márquez foi um Homero latino-americano, que identificou Ulisses regionais e escreveu suas odisseias”, diz Gutierre.

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“A vertente da ficção latino-americana que se convencionou chamar de ‘realismo maravilhoso’ consistiu numa afirmação identitária da América Latina e, ao mesmo tempo, numa revisão crítica da modernidade ocidental”, analisa Vera Lúcia Follain de Figueiredo, professora de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), no estudo Realismo Mágico No Século XXI, divulgado pela Rede Globo. “O ‘maravilhoso’ foi interpretado como elemento identificador da cultura latino-americana, como traço característico que a distinguia do mundo europeu. Resgatava-se, assim, a visão que os conquistadores tiveram da América quando aqui chegaram, no século XVI.”

Teste do tempo – Com a morte de Márquez, sua literatura será agora submetida ao teste do tempo. Para Machado, representante da editora Record e amigo pessoal do escritor, o colombiano passará sem dificuldades por este ou qualquer teste. “Suas obras são de cabeceira. Cem Anos, por exemplo, é considerado o livro favorito de muitas pessoas”, diz. Machado ainda relembra a última vez que encontrou pessoalmente o escritor colombiano. “Ele veio ao Brasil para um evento de cinema, mas desistiu do evento para jantar com os amigos. Tinha um humor um tanto sarcástico. Era agradável e inteligente. Seu prazer pela vida era tão evidente que transbordava, nas páginas e pessoalmente”, conta.

(Com reportagem Juliana Santos e Edoardo Ghirotto)