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Mario Bellatin critica literatura convencional na Bienal de Brasília

Marta Berard.

Brasília, 19 abr (EFE).- O escritor mexicano Mario Bellatin, que assegura que o trabalho de uma editora é ‘divulgar ideias e não privatizar’, defende uma literatura que não esteja em posse exclusiva dos autores e que sirva de plataforma para que o leitor construa seu próprio relato.

‘Estou cansado dos autores donos’, disse Bellatin em entrevista à Agência Efe durante a Bienal do Livro e da Leitura de Brasília, que será encerrada somente na próxima segunda-feira.

O autor de obras como ‘Flores’, ‘Salão de Beleza’ e ‘El Gran Vidrio’, Bellatin defendeu a autonomia das obras para que sirvam ‘de pretexto para que alguém faça algo diferente’.

O escritor mexicano, que participou das conversas da Jornada Literária da América Hispânica no marco da Bienal, exaltou o empenho não monopolizador da obra literária e declarou que ‘o trabalho de uma editora é divulgar ideias e não privatizar’.

Bellatin explicou que durante o processo de escrita parte de uma colocação barroca e vai escrevendo. Mas, depois volta para limpar essa escritura e apresentar espaços vazios.

‘Não é o vazio do nada, é o vazio que fica após ter destruído algo. Assim, você pode expressar o inexpressável. Escrever sem usar as palavras’, apontou o escritor mexicano, que ressaltou que desde o início sua narrativa não pertencia às tipologias estabelecidas.

‘Eu não fazia uma escritura para se enquadrar no que se devesse fazer’, disse o escritor, que precisou que sua obra ‘não é experimental, não é de fuga e nem de chegada: é de tudo’.’Não há uma trama, e não existe um personagem. O que existe é a escritura. Eu não construo um personagem, eu escrevo’, completou.

Além do envolvimento com suas obras, o escritor se encontra imerso em um curioso projeto cinematográfico, que circula entre a literatura, o cinema e a música diante da perigosa Ciudad Juárez, cidade situada na fronteira do México com os Estados Unidos – cenário dominado pelo tráfico de drogas e pelo desaparecimento de jovens mulheres e adolescentes.

O projeto é uma espécie de cinema musical, que adapta à ópera seu texto ‘Bola Negra’, onde um entomologista japonês come a si próprio.

‘Queremos juntar o absurdo de ir à cidade mais perigosa do mundo com uma ópera’, disse o artista, que contará com um grupo de 25 meninos da Ciudad Juárez para o projeto, além da participação de ‘crianças soldados’.

Segundo Bellatin, ‘o grande personagem desta montagem será a própria cidade’ e a busca do silêncio para que a realidade ‘fale por ela mesma’ em um trabalho que não tem a intenção de doutrinar ninguém.

‘Estamos cheios de escritores em posse da verdade e filmes documentários com diversas teses’, disse Bellatin, que ressaltou que a montagem na Ciudad Juárez ‘não será casual e está sendo construída para que seja assim’. ‘Há muitos interesses grandiosos, mas o que fica é essa violência que ninguém está disposto a resolver’, completou o escritor.

As sessões de literatura hispânica da Bienal também contaram com a participação do argentino Juan Gelman, do colombiano Héctor Abad Faciolince e do chileno Antonio Skármeta, que encerrou as conversas com uma reflexão sobre a função da literatura: ‘não tem que dar conta de nada, tem é que contar’, assegurou. EFE