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Maria Gadú e músicos são assaltados no RJ

Grupo foi rendido em Laranjeiras por quatro homens armados e teve instrumentos, celulares e dinheiro roubados

A cantora Maria Gadú e três músicos que a acompanhavam foram atacados por bandidos no fim da tarde deste sábado, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O grupo voltava de São Paulo em dois carros, quando pelo menos quatro homens armados com pistolas cercaram os veículos na rua Alice. Todos foram retirados dos carros e obrigados a se deitar no chão. Os ladrões levaram telefones celulares, relógios, malas, computadores e até os instrumentos da banda – um violancelo e um baixo.

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Em entrevista ao canal GloboNews, a cantora, que acredita não ter sido reconhecida, contou que os marginais gritavam o tempo todo, mas não chegaram a agredir ninguém: “Você se sente violentado de uma forma muito esquisita. Se ele (o bandido) enlouquecer, se ele tiver um segundo de rompante loucura, acabou para mim”, contou.

Gadú, que mora em São Paulo atualmente, seguia com o grupo para um estúdio de música no Rio Comprido, e subiu a rua Alice para pegar o caminho mais curto, por Santa Teresa. Todas as favelas da região contam com Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). O músico italiano Federico Puppi desabafou: “O valor afetivo é gigante. Quando você perde um instrumento (violoncelo), uma parte da sua música, da sua arte, vai embora. E isso em um roubo banal na rua, como devem acontecer tantos no Rio de Janeiro. Em uma violência absurda”.

Os músicos chegaram a pensar que se tratava de um acidente, porque foram abordados logo após uma curva. Maria Gadú relatou os momentos de desespero enquanto eram rendidos e tentavam sair do carro sem esboçar reação. “Saíram de repente os quatro do carro, com pistolas. Eu vi eles retirando os meninos do carro, e depois se dirigindo à gente com a arma apontada. Foi apavorante porque a porta não abria, aquela coisa da trava”, disse ela, que estava de carona no carro, dirigido pelo percussionista Felipe Roseno, que havia pegado o veículo emprestado com a sogra. O caso foi registrado na 9ªDP (Catete), que já descobriu que o veículo utilizado pelos bandidos havia sido roubado semana passada, na Tijuca.

Noel Rosa

Um consolo a Chico Buarque: os mestres também cometem os seus pecados. O namoro de Noel Rosa com a carreira médica, que ele cogitou seguir, pode ser usado como justificativa, mas não basta. Em Coração (Samba Anatômico), o poeta da Vila Isabel dá uma saracoteada na poesia, misturando descrições clínicas do dito cujo (“Coração, grande órgão propulsor / transformador do sangue venoso em arterial”) com metáforas penitenciárias (“Coração, tu és pro bem-estar do nosso sangue / O que a casa de correção / É para o bem da humanidade”). Um samba do crioulo doido.

Ary Barroso

O que não se faz pela métrica, pode-se perguntar quem encontra o óbvio ululante na letra de um compositor de recursos como Ary Barroso. O que não se fazia também para atender às orientações, feitas na era Vargas, de criar odes à nação, pode-se acrescentar. Seja como for, é uma sorte que o coqueiro citado em Aquarela do Brasil dê coco e não outra fruta. Ou talvez nem se pudesse amarrar ali uma rede nas noites claras de luar. 

Caetano Veloso

A Luz de Tieta, música-tema de Tieta do Agreste, filme de Cacá Diegues baseado no romance de Jorge Amado, tem algo de bom e algo de ruim. Mas põe ruim nisso. Numa música de passagens como “Tem de se esconder no escuro / quem na luz se banha” e “Toda noite, a mesma noite / a vida é tão estreita”, é duro cair num refrão como “Eta, eta, eta/ É a lua, é o sol/ É a luz de Tieta”. Ele carrega a muleta mais cômica da MPB. Diferentemente de “da-da”, que poderia remeter à vanguarda europeia em “Viva a banda-da-da-da-da” (Tropicália), “eta” não diz nada. É um marco na categoria rima infame.

 

Gilberto Gil

Parceiro de Caetano, o criativo ex-ministro da Cultura também já deu as suas viajadas. Nada que destoe do perfil de quem assumiu um ministério recomendando “uma espécie de do-in antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do país”. Em Chuckberry Fields Forever, composta para o grupo Doces Bárbaros, que formou com Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa nos anos 1970, ele foi longe. A letra toda é um tratado de literatura fantástica, mas o verso “os quatro cavaleiros do após-calipso”, com um trocadilho neologista caro a Gil, é exemplar. Vale também conferir sua performance dançante, aqui.

 

Djavan

O alagoano Djavan mereceria todo um livro sobre a bizarrice das suas letras. Mas, em prol da democracia, figuram apenas dois cases por aqui – além de um terceiro que, pode-se dizer, é culpa sua. Não se sabe como Djavan aprendeu a paquerar – se com um personal paquera ou em livros de autoajuda. O certo é que ele tem sorte de ter nascido bonito – e bom de melodia. Porque, se depender de cantadas como a que passa em Te Devoro, estaria até hoje na seca. A menos que Djavan estivesse interessado em uma paleontóloga, é difícil imaginar para quem poderia endereçar versos como “Tudo o que Deus criou pensando em você/ Fez a Via Láctea, fez os dinossauros / Sem pensar em nada, fez a minha vida / E te deu”.

Djavan

Aqui, como um bom caçador, Djavan parece cantar uma de suas conquistas. Infelizmente, sem pudor nem senso estético. “A luz de um grande prazer é irremediável neon”, diz a letra de Sina, canção que serviu de abertura ao seriado Confissões de Adolescente, da TV Cultura. “Quando o grito do prazer / Açoitar o ar / Réveillon”, continua o alagoano Djavan, antes de cair no falsete. Não é à toa que ele aparece duas vezes nesta lista. Ele merece.

Jorge Vercillo

Djavan de novo? Quase: trata-se do maior genérico do músico alagoano, a quem se pode atribuir toda a responsabilidade por letras como esta. “Numa noite viril de perseguição / Saltando entre os edifícios / Vi você!..”, canta Vercillo em sua Homem-Aranha. Difícil imaginar por que a Sony não aproveitou esse achado para a saga do super-herói, não?

Zé Ramalho

Há quem reclame das versões brasileiras de sucessos internacionais pela distância que guardam, nas letras, do sentido original da canção. Mas é difícil imaginar um desses opositores das versões livres em defesa da tradução literal de um clássico do americano Bob Dylan feita por Zé Ramalho. Knockin’ on Heaven’s Door virou Batendo na Porta do Céu. E “knock, knock, knock on heaven’s door” se transformou em “bate, bate, bate, na porta do céu”. Respeita o sentido original, mas dói ao ouvido.

Jorge Ben Jor

Jorge Ben – Jor por causa da numerologia – é outro caso que rende verdadeiros estudos acadêmicos. Sua safra mais recente, aquela marcada por hits como W/Brasil, é pródiga em versos estranhos e carentes de significado. É o que acontece com toda a letra de Engenho de Dentro, da qual se destacam, para ficarmos apenas com uma amostra, essa rica combinação de inflação com aventura amorosa: “Sonhando / O dólar caiu / Cruzeiro subiu / Numa boa / Tirei a escada / E beijei Davidowa”.

Daniela Mercury

“E dou um grito grão no bololô / E verso nós imenso amor / (…) / No calendário é flor e anda / Nu na varanda / E sondo o brocotó do ti-ioiô.” Oi?? Você entendeu? Provavelmente nem ela, mas ninguém melhor que a musa de Camille Paglia, fã de vocalizações nonsense como “agundê-arrá”, para cantar essa sucessão de caracteres intruncados impressos por Carlinhos Brown e Alain Tavares em Rapunzel. Oh, yeah, meu rei. Não entendi, mas dancei.

Novos Baianos

Esta é um desafio para a capacidade de interpretação humana. O que quer dizer o seguinte trecho de Mistério do Planeta, do grupo hippie Novos Baianos? “O tríplice mistério do ‘stop’ / Que eu passo por e sendo ele / No que fica em cada um / No que sigo o meu caminho / E no ar que fez e assistiu/ Abra um parênteses, não esqueça/ Que independente disso / Eu não passo de um malandro”. Tudo bem: não precisa responder agora.

Marcelo Jeneci

Mais uma para a categoria Letra Alucinógena, diretamente da novíssima geração da MPB: Café com Leite de Rosas, da trombada entre Marcelo Jeneci, Ortinho e Arnaldo Antunes. “Vou acender estrelas só pra te receber / E anéis de Saturno pra fazer bambolê / Vou convidar você para tomar café com leite de rosas.” Alguém pode dizer, por favor, o que é que tinha nessas rosas? 

A Banda Mais Bonita da Cidade

A música mais falada da internet nas últimas semanas é agradável, mas tem um pecadilho – além da repetição mântrica e cansativa de suas linhas. No meio da letra, surge do nada uma penteadeira, que, além de não ter função semântica, força a métrica mais do que o devido. Ok, ela serve para rimar. Mas antes não houvesse rima. “Coração não é tão simples quanto pensa / Nele cabe o que não cabe na despensa / (…) Cabem três vidas inteiras / Cabe uma penteadeira”, de Oração, da Banda Mais Bonita da Cidade, indicada na categoria Rima Infame.

Zeca Baleiro

Em se falando de rima infame, não se pode deixar de citar Lenha, de Zeca Baleiro, que até o tolerante Caetano Veloso – atual parceiro de Maria Gadú – chegou a apedrejar. Com versos como “Se eu digo venha / você traz a lenha / pro meu fogo acender”, a canção tem poder de fogo para disputar o troféu Cantada Chumbrega com as maiores pérolas de Djavan. O páreo é duro.