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Manuscritos revelam face desconhecida de figuras do passado

Livro reúne pérolas do acervo de Pedro Corrêa do Lago, num inédito mergulho na intimidade de grandes personalidades

Desencavadas daqui a 100 anos das memórias da internet, mensagens de WhatsApp trocadas por figuras famosas certamente vão revelar a futuras gerações angústias, alegrias e segredos bem guardados. Nos dias de hoje, essa função é dos manuscritos — cartas, recibos, encomendas, até rascunhos de desenhos que permitem vislumbrar a intimidade de seus autores por meio do ato solitário e individual de pegar da pena e fazer anotações em um pedaço de papel. Tomem-se o pintor francês Paul Gauguin, por exemplo, e sua participação no episódio em que o colega Vincent van Gogh cortou fora a própria orelha, em dezembro de 1888. Na época, os dois conviviam na célebre casa amarela em Arles, no sul da França, e muitos relatos creditam o surto que resultou na mutilação à relação tempestuosa entre eles. Mas só nos anos 1980 se teve uma confirmação disso em primeira mão — e justamente em uma carta escrita por Gauguin. Datada de janeiro de 1889, nela o pintor francês relata a um cliente que passara o último mês sob o “medo constante de um acidente mortal ou trágico”, na companhia de um “louco varrido”. “O documento evidencia que Gauguin estava mais preocupado com sua segurança do que com a saúde do amigo e que Van Gogh vivia em crise havia algum tempo”, ressalta o curador Martin Bailey, especialista na obra do pintor holandês.

A carta de Gauguin é um dos 140 documentos que compõem A Magia do Manuscrito (Editora Taschen, 464 páginas), livro lançado nos Estados Unidos que chega agora ao Brasil, depois de ter sido traduzido para cinco idiomas. Os escritos originais, exibidos no ano passado em uma exposição no The Morgan Library and Museum, de Nova York, fazem parte do acervo de mais de 100 000 itens do historiador carioca Pedro Corrêa do Lago, o maior colecionador particular de manuscritos do mundo. O material publicado abrange nove séculos de história, desde documentos papais de 1153 até a assinatura do físico britânico Stephen Hawking, na forma de digital, em 2006. Aparecem no livro, lado a lado, uma carta de felicitações pelo nascimento de um sobrinho escrita pela rainha Maria Antonieta, desenhos despretensiosos de Napoleão Bonaparte, reflexões sobre a velhice do político recém-aposentado Winston Churchill e a autocrítica de Charles Darwin: “Tenho sempre o consolo de haver feito o melhor que podia”.

Entre brasileiros, há escritos a mão dos últimos trabalhos de Machado de Assis, protótipos de dirigíveis e pequenos aviões produzidos por Santos Dumont e a partitura original de Chega de Saudade, o marco da bossa nova, anotada por Antonio Carlos Jobim. “A caligrafia é um eco da presença física de um indivíduo em um momento específico e passageiro. Quando a preservamos, a letra dele, em certo sentido, o mantém vivo”, reflete a curadora do Morgan, Christine Nelson, organizadora da exposição de cujo catálogo nasceu a ideia do livro. Nele, cada documento apresentado é acompanhado de uma explicação que o coloca em seu contexto. Assim o leitor pode reviver a agonia do jovem Wolfgang Amadeus Mozart, que, às voltas com sua primeira paixão, implorava ao pai que lhe permitisse viajar para a Itália ao lado da família da amada, uma jovem soprano de 16 anos. A insistência apaixonada com que redigiu o pedido não funcionou. “Foi uma das raras ocasiões em que Mozart lutou para se desprender do pai, a quem foi obediente até o fim da vida”, explica o compositor Leo Martinelli, estudioso da obra do compositor austríaco.

As intimidades familiares, aliás, ganham destaque em alguns dos manuscritos da obra. Implacável analista das relações entre pais e filhos, Sigmund Freud tem seus laços expostos no livro: consta da coletânea um bilhete do devotado filho Sigmund ao enviar 6 dólares (fruto das consultas com pacientes americanos, que lhe pagavam nesta moeda) para a mãe como presente de aniversário — uma quantia razoável em tempos de crise na Europa. Outro cartão com a caligrafia do pai da psicanálise trata da cobrança de vinte horas de sessões — pagar pelo tratamento, para Freud, era essencial para o bom resultado da terapia. Os momentos íntimos das personalidades dividem as páginas de A Magia do Manuscrito com bastidores de momentos históricos, como uma carta do rei Henrique VIII da Inglaterra a Francisco I da França, datada de 4 de abril de 1537, logo após o rompimento de Londres com o Vaticano — um dos itens mais marcantes da coleção, segundo o próprio Corrêa do Lago. “O documento atesta que Henrique VIII era um habilidoso negociador. Ao mesmo tempo que nega um pedido de ajuda militar à França, procura convencer Francisco a não dar ouvidos aos emissários do papa”, explica o professor Ricardo Gomes, especialista em história britânica.

Além de exibir cartas, bilhetes e outros textos, o livro reproduz desenhos elaborados pelas mãos de gênios, como aquele em que, no despertar do vibrante mercado de artes na Florença renascentista, o jovem Michelangelo Buonarroti registra as especificações técnicas para uma base de mármore que seria incorporada à fachada da Basílica de San Lorenzo. “Foi a primeira grande encomenda arquitetônica de Michelangelo e financiada pela família Medici, que o descobriu e se tornou sua maior incentivadora”, diz Deivis de Campos, professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e especialista na obra do artista. Amealhadas ao longo de mais de meio século, as preciosidades históricas reunidas por Corrêa do Lago estão armazenadas a sete chaves em um prédio no coração de São Paulo, onde as salas são equipadas com arquivos corta-­fogo capazes de suportar temperaturas de até 1 000 graus.

Filho de embaixador, Corrêa do Lago, de 61 anos, deu início à sua coleção ainda na infância, coletando diligentemente assinaturas de políticos e amigos do pai. Na adolescência, descobriu o Who’s Who, publicação que compilava pequenas biografias e os contatos de personalidades do mundo inteiro. “Saí mandando cartas e pedidos de autógrafo”, lembra o colecionador, que guarda com especial cuidado as respostas que recebeu dos artistas Joan Miró e Marc Chagall e da escritora Agatha Christie. A primeira grande aquisição, diz, foi um manuscrito do pintor Édouard Manet, comprado por “uma pechincha” graças a um equívoco do agente europeu. Em contrapartida, ele lamenta até hoje a perda de uma das últimas cartas do czar Nicolau II da Rússia, vendida a um oligarca do país. “O manuscrito é um pedaço da história que cabe na mão”, define Corrêa do Lago. A Magia do Manuscrito é a chance de o público conhecer — e se emocionar com — esses recortes íntimos de tempos passados.


Paul Gauguin (1848-1903), Paris, 1889

“(…) Eu sei o que me espera e sigo tranquilamente de miséria em miséria até o fim (…)”

Na carta a um cliente, dias depois de Van Gogh ter cortado a orelha, o pintor francês se mostra mais preocupado com a própria pele do que com a deterioração da saúde mental do colega.


Sigmund Freud (1856-1939), Viena, 1934

“30/6/1934 / Prof. R. Grinker / Junho 1934 / 20 horas = S. 2000 (xelins) / Freud”

O pai da psicanálise sempre defendeu a tese de que o relacionamento entre terapeuta e paciente deveria ser estritamente profissional. Requerer o pagamento de vinte sessões, como consta do cartão de cobrança que ele redigiu, seria um dos pontos essenciais para o sucesso do tratamento.


Michelangelo (1475-1564), Florença, 1518

“Sete oitavos (de um braccio) alto /Um e três quartos (de um braccio) /Duas braccia e meia /As bases devem ser oito / uma metade (de um braccio)”

O escultor e pintor italiano sempre cuidou da seleção do mármore para suas encomendas. No manuscrito, anota em braccia — uma medida florentina — o tamanho de uma base que planejava incorporar à sua primeira grande obra arquitetônica.


Mozart (1756-1791), mannheim, 1778

“Venho para defender. (…) Por favor, não se esqueça da Itália. (…) Respondo pelas virtudes da pobre senhorita Weber com todo o meu coração (…)”

O rapaz apaixonado implora ao pai que o deixe viajar para a Itália com a família de sua amada. O pai-empresário, que mantinha o filho à rédea curta, não deixou.


Henrique VIII (1491–1547), Londres, 1537

“(…) Pedimos ao nosso Irmão (…) que julgue e se oponha a esse movimento perfeitamente pérfido (…)”

Poucos anos após romper com o Vaticano para fundar a religião anglicana, o monarca da Inglaterra pede ao rei Francisco I, da França, que não receba o emissário do papa que angariava adesões  para condenar seu ato.


Fotos: Adoc-Photos/Corbis/Getty Images; Print Collector/Getty Images; Staatliche Museen Zu Berlin/EFE; Stock Montage/Getty Images

Publicado em VEJA de 4 de dezembro de 2019, edição nº 2663