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Maniqueísmo dá o tom da minissérie O Brado Retumbante

Bondade e maldade se alternam numa rigidez fantasiosa, e quase irreal, no primeiro episódio da série que busca retratar os bastidores do poder

Paulo Ventura (Domingos Montagner), o presidente acidental de O Brado Retumbante, tirou nota máxima no exame anticorrupção logo no primeiro capítulo da minissérie de Euclydes Marinho, exibido nesta terça. O personagem só falhou em um teste: entender que a bondade nem sempre se alterna com a maldade, e vice-versa. Os dois lados da moeda se confundem e nem sempre ficam claros. O deputado federal que é nomeado chefe da Câmara dos Deputados e vira presidente da República num piscar de olhos pareceu mais um Dom Quixote de terno e gravata do que o exemplo a ser seguido para ativar a revalorização da política brasileira.

No primeiro episódio da minissérie de Euclydes Marinho, exibida nesta terça-feira, o político presta socorro a um motociclista acidentado após ser atingido por um carro que avançou o sinal vermelho, vai à delegacia prestar queixa contra o motorista e recusa a sugestão de suborno oferecida pelos policiais que atenderam a ocorrência. “Eu acho que prefiro discutir essa generosa oferta na delegacia”, diz. O bom mocismo está presente até no momento em que ele é sincero e diz à amante que não irá ligar no dia seguinte ao encontro. “Amanhã não vai dar”, diz, curto e grosso, aos pedidos manhosos de atenção de Alessandra (Alinne Rosa), apenas uma das muitas mulheres do presidente.

A postura ética e a transparência de caráter são mais do que louváveis, mas se mostram praticamente ineficientes quando contrapostas à realidade do esquema montado pelos políticos corruptos que Ventura enfrenta em sua empreitada rumo à limpeza ética no Planalto. “Assim como não existe a máfia que a CPI investiga, esse Paulo Ventura também não existe”, diz um do time dos corruptos.

Ventura chega ao comando do país após o presidente e seu vice, seus inimigos políticos, desaparecerem num acidente de helicóptero em Macaé, no Rio de Janeiro. “Vão acabar falando que eu fiz um trabalho para derrubar aquele helicóptero”, pensa em voz alta.

Aos poucos, O Brado Retumbante, na verdade, se mostra uma minissérie em que a política serve apenas de pano de fundo para retratar a vida íntima do personagem errante. A intenção de inserir o telespectador na intimidade do poder fica evidente através do uso da câmera subjetiva, que transforma o público quase num espião infiltrado em cada cena. Outro indício é o encontro de Paulo Ventura com o inimigo político, o ministro da Justiça Floriano Pedreira (José Wilker), que se dá dentro do banheiro, após uma reunião com o Congresso. Na cena, os ideais de Ventura são postos à prova pela primeira vez, em embate retórico com Floriano, enquanto abaixa o zíper da calça em frente ao mictório.

A humanidade do personagem, e a inevitável falência do ser humano, ficam mesmo por conta de sua vida pessoal. Em crise no casamento com Antônia (Maria Fernanda Cândido), Ventura mostra que seu ponto fraco é o famoso rabo de saia. “O que é mais bonito do que o andar de uma mulher? O andar de duas mulheres”, diz após secar moças nos corredores do poder. Ele também é viciado em álcool e tem uma relação péssima com o filho mais novo.

O Brado Retumbante estreou com o objetivo de falar sobre ética na política pela via do entretenimento. O propósito tão nobre, porém, ficou ofuscado pela ideia ingênua de que só os bons vencem no final. Infelizmente, isso só acontece na ficção.