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Manicures: unha e carne com a moda

Fazer as unhas já não é sinônimo de falar de novela. Cada vez mais preparadas, as profissionais que cuidam das mãos têm salários polpudos, código de ética e autoridade de quem entende de estilo para fazer a cabeça das clientes

Por Mariana Zylberkan - 8 set 2012, 13h37

Manicure de formação, Monalisa, a personagem de Heloísa Périssé em Avenida Brasil, é uma mulher descolada e empreendedora, que ergueu praticamente sozinha um salão de beleza e um patrimônio que agora a credencia a morar na zona sul do Rio de Janeiro, um dos IPTUs mais caros do país. Mais do que uma ficção, a personagem do novelista João Emanuel Carneiro representa um novo tipo de profissional, que vem crescendo com a boa fase do setor de esmaltes, hoje transformados em acessórios de moda, e se se aprimorando com cursos e congressos dedicados exclusivamente para elas. Esse grupo, de cerca de 1,5 milhão de profissionais em todo o país, já tem até código de ética e neologismo próprios. No mercado de moda, manicure agora é nail artist e o lugar onde as mãos são feitas, nail bar. E uma cliente não é apenas uma cliente: é alguém que procura estilo.

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“As clientes não aceitam mais serem atendidas por qualquer pessoa”, diz a dona de salão Tania Emiko, de 39 anos, uma fisioterapeuta que trocou de profissão para transformar o hobby de manicure em principal fonte de renda, há quatro anos, e hoje diz ganhar mais que médico. “Em três dias por semana, faço 5.000 reais.” Segundo Tania, para ser amada por suas clientes uma manicure agora precisa cumprir uma série de exigências, como ter bom comportamento, excelente aparência e ótima formação. E desse perfil ela entende. A empresária, que fatura alto com o serviço de alongamento e decoração de unhas com cerâmica, uma das especialidades de um segmento que não para de se desenvolver e se desdobrar, é também consultora de investidores, recrutando e treinando nail artists para nail bars.

Para ela, saeja qual for o gosto da freguesa (que varia país afora, vide quadro abaixo), ter unhas impecáveis é o desejo de qualquer mulher por conferir um status social. “Dá a impressão de que ela não faz nenhum trabalho doméstico e apenas curte a vida de madame.” Clientes badaladas e a equiparação dos esmaltes com acessórios da moda fazem Tania ter orgulho de ter trocado a carreira de fisioterapeuta, com especialização no Japão, pela de manicure, apesar de garantir que nunca havia imaginado seguir a profissão. “Ser manicure é um glamour.”

Arte das unhas Brasil afora
Arte das unhas Brasil afora VEJA

A mais nova demonstração de força das unhas acontece em São Paulo neste fim de semana, durante a Beauty Fair, feira de beleza que é realizada anualmente e neste domingo deve receber, em seu Congresso de Manicures, cerca de 700 mulheres – além de dois homens – interessadas em se manter atualizadas com as tendências do mercado. Na programação, estão previstas palestras sobre tratamentos para retardar o envelhecimento das mãos e combater micoses, mas também as últimas novidades em termos de moda, como o lançamento da coleção de cores e unhas postiças que deve pautar a próxima estação primavera-verão.

É justamente a habilidade artística para manipular pincéis e gotas de esmaltes em desenhos mínimos sobre as unhas que alça muitas profissionais a objeto de desejo de outras mulheres. Muito assediada, Geralda da Silva Campos, de 54 anos, só consegue atender suas clientes durante as festas de fim de ano, quando entra em recesso do emprego de palestrante de uma marca de esmaltes. Nos outros meses, as clientes têm que se contentar com as dicas que ela publica em revistas de cinco editoras diferentes. Ela conta que a carreira mudou a sua vida e até a sua fisionomia, apesar de ainda não ter se rendido às plásticas. “Ainda não fiquei rica, mas posso dizer que almoço e janto muito bem”, diz Geralda, que começou a fazer unhas aos 10 anos em Serra de Luís Gomes, município de 10.000 habitantes do Rio Grande do Norte, onde nasceu.

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Crescimento e concorrência – Além de uma mudança de status, já que agora são tidos como acessórios fashion, os esmaltes se beneficiam do bom momento econômico do setor, iniciado há dois anos, quando o Brasil tornou-se o segundo país consumidor do produto, atrás apenas dos Estados Unidos. Mais de 111 milhões de fracos de esmaltes foram vendidos no Brasil entre janeiro e junho deste ano, um crescimento de 17,4% na receita da indústria em relação ao mesmo período no ano anterior, quando as empresas movimentaram mais de 240 milhões de reais.

Por números como esses, Maria dos Anjos Mesquita Hellmeister, presidente do Sindicato dos Empregados em Instituto de Beleza e Cabeleireiros de Senhoras de São Paulo e Região (Sindebeleza), é categórica ao dizer que não existe desemprego no setor. “A manicure pode atender em qualquer lugar.”

A proliferação cada vez maior de placas “Precisa-se de manicure” é confirmada por instituições que oferecem cursos profissionalizantes a mulheres desempregadas. O Instituto Beleza e Cidadania registrou um aumento de 50% de mulheres interessadas em aprender a profissão. “Dá para ganhar dinheiro todo dia e isso atrai bastante”, diz Maria Ivone Stercazechi, coordenadora do curso de manicure.

Mais do que ensinar a não machucar os dedos da cliente com o alicate e a esterilizar o material, Maria Ivone frisa nas aulas a importância da ética profissional. Toda manicure trabalha bem perto de suas clientes, por isso, discrição em relação às fofocas e bom hálito são fundamentais. O fuxico está sempre no topo da lista dos temas a serem evitados durante os atendimentos, seguida por outros assuntos espinhosos. “É preciso evitar qualquer conversa sobre política, religião ou futebol”, ensina a presidente do Sindebeleza.

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A professora lembra que, durante o tempo em que atuou como manicure em domicílio, era vista como uma espécie de espiã por uma senhora que costumava atender e sempre tentava arrancar algum detalhe da vida conjugal da filha, também cliente da manicure. “Temos que ignorar qualquer tipo de fofoca.”

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