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Liberdade é dissidência

No século XVII, John Milton já defendia a livre discussão de ideias

Guimarães Rosa afirmou, famosamente, que escritores não devem se ocupar de política: quando o fazem, acabam publicando pouco; quando publicam, expressam na ficção ideias diferentes das que defendem na vida pública. Há, contudo, um grande autor cuja trajetória contraria, ao menos parcialmente, o conselho de Rosa: o inglês John Milton (1608-1674). Puritano ardoroso e republicano convicto, apoiou a revolta do Parlamento contra Carlos I durante a guerra civil, iniciada em 1642; após o triunfo da revolução, trabalhou para o novo regime, postergando por vinte anos seus projetos literários. A restauração da monarquia, em 1660, pôs fim à carreira política de Milton — derrota salutar, que lhe permitiu dedicar-se à composição de seu terrível e magnífico poema Paraíso Perdido. É de imaginar que a experiência nos altos círculos do poder tenha lhe conferido material precioso para recriar, com esmagadora verossimilhança, os profundos mecanismos do Inferno.

Antes de compor sua obra-prima, Milton já havia inscrito seu nome em outro ramo da história literária: foi um dos primeiros autores a defender explicitamente a liberdade de imprensa. Desde a invenção dos tipos móveis, no século XV, a publicação de livros e notícias fora submetida ao controle da Igreja e dos governos locais em diversas partes da Europa. Na Inglaterra, antes da guerra civil, a censura ficava a cargo dos bispos anglicanos de Londres e Canterbury. Com a deposição de Carlos I, houve esperanças de que a imprensa fosse libertada — o governo puritano, contudo, simplesmente trocou os censores inimigos pelos próprios correligionários. Excêntrico demais para ser um fanático, Milton ergueu-se contra o governo que ajudara a criar. Em 1644, escreveu a Areopagitica — erudito e saboroso panfleto que defende a livre circulação de ideias e condena toda forma de censura prévia, mesmo quando pareça bem-intencionada. “Dai-me a liberdade de saber, proferir e argumentar abertamente, acima de todas as outras liberdades”, escreveu. “Pois a Verdade e o conhecimento não são mercadorias que possam ser monopolizadas e trocadas por bilhetes, regras e estatutos… E ainda que todas as ventanias doutrinais estejam soltas sobre a terra, injuriamos a Verdade e subestimamos sua força, quando tentamos regular e proibir as opiniões contrárias. Que a Verdade e a Mentira lutem livremente; pois jamais a Verdade será derrotada em um duelo aberto.”

Quanto ao triunfo da verdade, sou menos otimista que meu poeta querido: a história recente demonstra que a espécie humana tem uma paixão entranhada pelo falso, pelo inexato e pelo confortável. Mesmo assim, a Areopagitica de Milton é um marco na batalha talvez interminável da consciência individual contra o impulso sectário. A tal verdade, esteja onde estiver, será sempre a grande dissidente nas ideologias absolutas: sufocá-­la ou distorcê-la é a tendência natural de quem nelas se abrace.

Nesse sentido, a tutela da liberdade não é outra coisa senão o cultivo da eterna dissidência.

Publicado em VEJA de 17 de outubro de 2018, edição nº 2604