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Lesa-majestade

'Duas Rainhas' exagera no viés pós-feminista ao tratar da rivalidade entre Elizabeth I da Inglaterra e Mary Stuart da Escócia e distorce as duas personagens

Transbordante de intriga, a Inglaterra do período Tudor frequentemente é objeto de licenças por parte da ficção. Mas, em Duas Rainhas (Mary Queen of Scots, Inglaterra/Estados Unidos, 2018), já em cartaz no país, o abuso é excessivo. É fato que Elizabeth I não era a única candidata a suceder ao seu pai, Henrique VIII: a depender da interpretação do freguês, ela seria bastarda e também uma ameaça ao reino, por ser protestante. Elizabeth, porém, foi coroada justamente porque prevaleceu a facção que via aí a sua legitimidade. A rainha, então, estabeleceu-se como o animal político que era: com visão de estadista, finesse diplomática e solteirice resoluta. Mas, no filme dirigido pela inglesa Josie Rourke e roteirizado por Beau Willimon, de House of Cards, Elizabeth aparece fraca, deprimida e titubeante na pele de Margot Robbie: é um peão das regras masculinas do poder — e sente-se ameaçada não só como monarca, mas como mulher, pela jovem prima Mary Stuart (Saoirse Ronan), católica e rainha da Escócia, que nunca parou de reclamar para si o trono inglês.

A história registra Mary como uma mulher quase tão formidável quanto Elizabeth, mas menos habilidosa. Não soube lidar com os lordes escoceses protestantes, aferrou-se a um conselheiro detestado, escolheu mal os maridos. Em 1567, seis anos depois de retornar da França à Escócia, foi deposta. Teve de pedir proteção a Elizabeth, de quem se tornou prisioneira — e, como continuou a conspirar, por ela foi executada, em 1587. As duas primas nunca se encontraram, e a disputa delas era, no esquema maior, uma colisão entre visões diversas do futuro da Inglaterra (que tirou a sorte grande com Elizabeth). Adaptado de uma biografia que utiliza no título a expressão “a verdadeira história” — sinal de que há peixe a vender ao leitor —, Duas Rainhas pinta suas protagonistas como vítimas, e imagina um encontro em que Mary teria apelado à união feminina. É, além disso, um filme opaco, que faz dessa rivalidade figadal algo morno. Um caso de lesa-­majestade, enfim.

Publicado em VEJA de 10 de abril de 2019, edição nº 2629

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